Reajuste na gasolina é inevitável, diz Maduro

Presidente da Venezuela ameaça banir companhias aéreas que suspenderem voos

DENISE CHRISPIM MARIN, ENVIADA ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2014 | 03h03

Mesmo ciente do impacto social do aumento do preço da gasolina, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, indicou ontem sua disposição de ser o primeiro chefe de Estado em 17 anos a adotar a medida. Maduro desafiou o setor mais radical da oposição a participar da conferência de paz organizada por seu governo, mas acusou os rivais de serem responsáveis pelos atos de violência e de tentar promover um "golpe de Estado".

"Estamos elaborando o plano (de aumento da gasolina) e vamos colocá-lo em debate público", afirmou o presidente. "Adotaremos um sistema para adaptar os preços. Não estou falando em subir, mas em começar a cobrar. E a Venezuela toda estará de acordo com isso", disse. Segundo Maduro, os consumidores, muitas vezes, dão uma gorjeta maior ao frentista do que o valor que pagam pela gasolina.

Para o Ministério de Petróleo e Mineração, o subsídio atual ao preço da gasolina custa US$ 12,6 bilhões ao ano aos cofres públicos. O preço cobrado nas bombas está congelado há 17 anos, entre 0,070 a 0,097 bolívares por litro - cerca de R$ 0,01 a R$ 0,016 no câmbio oficial - e nem Hugo Chávez ousou tocar na subvenção.

Maduro insistiu que a iniciativa não significará o fim da revolução bolivariana, mas uma maneira de promover equilíbrio econômico sem prejuízo ao sistema de proteção social. O presidente mesmo lembrou que a renda da produção e exportação petroleira do país sustenta entre 65% e 70% dos programas de distribuição de renda.

Inevitavelmente, o aumento do preço da gasolina e do diesel causará uma elevação ainda maior da inflação e da insatisfação social. Ontem, o Banco Central da Venezuela informou que, em fevereiro, o índice de preços variou 2,4%. Em termos anualizados, a inflação alcança 57,3%, uma das mais elevadas do mundo.

Maduro convocou a entrevista de ontem para desafiar a frente oposicionista Mesa da Unidade Nacional (MUD) e grupos estudantis contrários à conferência de paz convocada pelo governo, da qual participam também empresários e Igreja. Apesar de ter sublinhado sua intenção de "respeitar as demandas e argumentos" da MUD, o presidente afirmou que pretende escancarar para seus líderes as imagens de violência cometida por grupos de direita.

Com o mesmo estilo de oratória de Chávez, Maduro convidou para sua entrevista parentes de supostas vítimas das barricadas estudantis e dos grupos armados. Também compareceram os netos de Emiliano Zapata e de Pancho Villa, líderes da Revolução Mexicana, de Augusto Sandino, da Revolução Sandinista, e do ex-presidente chileno Salvador Allende, derrubado pelo golpe militar de 1973. "Não vou permitir que os grupos violentos se imponham na Venezuela. Não tenho medo de ninguém neste país", disse o presidente.

Aéreas. Em um novo desafio, desta vez às companhias aéreas, Maduro avisou que as empresas que abandonarem rotas não serão autorizadas a retomá-las depois. A Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata) informou que algumas empresas pretendiam suspender voos em razão de porque o governo venezuelano suspendeu o pagamento de US$ 3,7 bilhões em dívidas.

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