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Realidade econômica e cultural da Ucrânia refuta ideia de secessão, dizem analistas

KIEV - Com exceção da Crimeia, república autônoma de maioria russa, a narrativa segundo a qual a Ucrânia é um país condenado à divisão, com interesses e identidades irreconciliáveis entre o leste e sul pró-russos e o oeste e norte pró-europeu, não se sustenta objetivamente na realidade econômica, na dinâmica política nem na conformação cultural do país, revelam analistas ucranianos. A percepção de dois países com destinos divergentes é baseada em conceitos subjetivos - o que não é pouca coisa, no reino da política, mas pode não se sustentar, passado o trauma da queda do presidente Viktor Yanukovich e a flexão de músculos das Forças Armadas russas na fronteira.

Lourival Sant’Anna, Enviado Especial / Kiev - O Estado de S. Paulo,

05 de março de 2014 | 23h26

Em Donetsk, principal cidade do leste da Ucrânia, onde há uma importante produção de aço, carvão, trigo, açúcar de beterraba, óleo de girassol e batata, o repórter do Estado ouviu de manifestantes de etnia russa que uma eventual entrada do país na União Europeia (UE) aniquilaria a economia da região, por dificuldades de competitividade. Esses manifestantes defendem uma união aduaneira com a Rússia, com a qual, acreditam eles, a economia ucraniana tem maior complementaridade.

O argumento é um eco do "complexo econômico nacional unificado", que vigorou entre as 15 repúblicas da União Soviética, extinta em 1991. Passadas duas décadas, é natural que alguma interdependência ainda exista, principalmente em um país como a Ucrânia, cuja instabilidade política tem desencorajado investimentos na produção. Entretanto, um meticuloso estudo dos produtos regionais brutos (PRBs), feito pelo economista Oleksandr Kramar, mostra que não há correlação entre a posição geográfica de cada província ucraniana e sua dependência comercial da União Europeia ou da Rússia.

O levantamento mostra que os cinturões industriais do leste e do sul são muito mais dependentes das exportações do que do mercado interno. A participação do comércio exterior em suas economias varia de 48% a 91%, enquanto que nas regiões oeste e centro, o índice vai de 10% a 25%, o que mostra a relevância muito maior do mercado interno.

Entretanto, a UE é um destino mais importante do que a Rússia para os produtos exportados por praticamente todas as regiões, incluindo as do leste e do sul.

A própria região de Donetsk, por exemplo, um dos epicentros da resistência pró-russa, exporta 20,5% de seus produtos para a Rússia e 25,6% para a UE. A Crimeia é uma das poucas regiões que exportam mais para a Rússia do que para a UE, mas a diferença é pequena: 25,8% a 21,5%, respectivamente. No oeste, a proximidade com a UE aumenta a fatia das exportações para o mercado europeu. Lviv, por exemplo, principal reduto pró-europeu do país, exporta 14% de seus produtos para a Rússia e 66,7% para a UE. Mas isso não é uma regra no oeste: a província de Khmelnitskiy, por exemplo, exporta 44,2% para a Rússia e 30,6% para a UE.

"Apesar da propaganda popular, um alto grau de dependência do mercado russo é evidente apenas em um pequeno número de províncias", conclui o economista. "Das nove que exportam mais de 30% de sua produção para a Rússia, apenas duas são altamente dependentes das exportações e da produção industrial: Zaporizhzhia (sudeste) e Sumy (nordeste)." Em qualquer caso, Kramar argumenta que uma associação à UE não anula a possibilidade de uma união aduaneira com a Rússia.

A importância da UE levou grandes empresários a romper com Yanukovich e a apoiar financeiramente o movimento na Praça da Independência, depois que ele cedeu às pressões do presidente russo, Vladimir Putin, para suspender a associação ao bloco europeu.

No campo político, a tendência é muito mais de reacomodação de interesses do que de conflito. O hábito dos líderes locais de se adaptarem rapidamente às mudanças de comando no poder central, cultivado na antiga União Soviética, fala mais alto.

"Há uma longa tradição dos líderes e funcionários locais de imitar o governo central a cada mudança", assegura a cientista política Inna Sovsun, do Centro de Pesquisas da Sociedade, em Kiev. "Não acho que o protesto será tão forte nem que haverá necessidade de impor à força a aceitação do novo governo", aposta Inna, que é de Kharkiv, no leste, reduto de Yanukovich e pró-russo. "Basta o novo governo mostrar que vai proteger melhor do que o anterior os interesses dos moradores do leste e do sul, que também estão cansados da corrupção, do baixo poder aquisitivo e da falta de oportunidades."

O repórter do Estado entrevistou dois veteranos da guerra do Afeganistão que comandavam a guarda popular criada pelos manifestantes na Praça da Independência - ambos de etnia russa. Entre os primeiros manifestantes mortos pela polícia, estavam um armênio, um bielo-russo e dois georgianos étnicos - todos cidadãos ucranianos.

Até mesmo na esfera da identidade cultural, as duas etnias têm muito mais traços a uni-los do que a separá-los. "É artificial a diferença de identidade entre russos e ucranianos", analisa Justyna Kravchuk, que faz doutorado sobre cultura ucraniana na Kiev-Mohyla Akademia. "Ela foi mais importante no passado. Hoje em dia, é explorada pelos políticos para obter apoios locais", diz Justyna, que é de Lviv, onde predomina a etnia ucraniana. "O ódio dos ucranianos do oeste em relação aos russos é um mito", garante Justyna, de 22 anos. "Sou do oeste e as pessoas não ligam tanto para isso."

Elementos importantes da cultura, como a língua e a religião, são muito próximos. O vocabulário ucraniano, principalmente o falado no oeste, sofre mais influência do polonês e do bielo-russo. Mas ambos os idiomas utilizam o alfabeto cirílico e a mesma gramática. Em geral as pessoas se entendem. É comum um falar russo, outro responder em ucraniano e o diálogo prosseguir assim, bilíngue. Os ortodoxos russos seguem o "patriarca de Moscou e de toda Rus" (nome ancestral) e os ucranianos, o "patriarca de Kiev e de toda Rus-Ucrânia". Mesmo a Igreja Católica Grega, frequentada no oeste, segue os ritos e festas ortodoxos.

Tensões entre as duas etnias existem há muito tempo e continuarão existindo. Nada impede que haja conflitos localizados, como o da Crimeia, de longe a situação mais aguda. Mas é provável que o problema esteja sendo superestimado. Uma divisão da Ucrânia não interessa aos ucranianos - sejam de que etnia forem. Tanto assim que uma das principais acusações ouvidas nas duas praças, a da Independência e a de Lenin, é a de que o outro lado está tentando dividir o país.

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