Xinhua/Lan Hongguang/Reuters
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Reaparição de Xi Jinping acalma sucessão chinesa

Burocrata que viu o pai, herói da revolução, ser enviado por Mao a campo de trabalho se prepara para virar presidente

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2012 | 03h03

PEQUIM- Xi Jinping viu seu pai despencar da cúpula do poder na China quando tinha 9 anos. Aos 15, foi trabalhar como camponês e aprender com as "massas" na zona rural e sua candidatura a membro do Partido Comunista só foi aceita na décima tentativa. A incerteza voltou a rondar o destino de Xi nas duas últimas semanas, quando ele desapareceu da arena pública chinesa, dando margem a boatos sobre sua saúde. Seu reaparecimento, no sábado, indica a continuidade de sua ascensão ao poder.

Muitas das dúvidas se mantêm na obscura estrutura de poder da segunda maior economia do mundo, mas se tudo ocorrer como previsto, Xi assumirá o comando do Partido Comunista no próximo mês e, em março de 2013, se tornará presidente. Como a maioria dos chineses que viveram sob o império de Mao Tsé-tung, ele tem uma história épica, na qual o final feliz é precedido de sofrimento, reviravoltas e embates ferozes entre diferentes facções do Partido Comunista.

Filho do herói revolucionário Xi Zhongxun, o provável futuro presidente chinês nasceu numa família privilegiada. Zhongxun era vice-primeiro-ministro e gozava de regalias. Mas quando Xi tinha 9 anos, seu pai caiu em desgraça por defender a publicação de um livro crítico a Mao. Perdeu o cargo e passou os seguintes 16 anos num limbo político, a maior parte dos quais na prisão.

A situação de Xi tornou-se ainda mais precária depois da eclosão da Revolução Cultural (1966-1976). Como milhões de jovens urbanos, o adolescente teve de interromper os estudos e se adaptar ao trabalho pesado e braçal do campo, onde viveu dos 15 aos 22 anos. Seu destino foi a vila rural de Liangjiahe, na empobrecida Província de Shaanxi, onde morava em uma casa escavada na montanha. Depois de reclamar das moscas, da cama dura e da solidão, o jovem abraçou seu destino e decidiu entrar no mesmo Partido Comunista que perseguia seu pai.

Para isso, precisou vencer a desconfiança dos camponeses e provar que não sofria dos "desvios" políticos de Zhongxun. Em um dos telegramas divulgados pelo WikiLeaks, um acadêmico que conheceu Xi na juventude afirmou que o líder chinês "decidiu sobreviver tornando-se mais vermelho que os vermelhos".

O instinto de sobrevivência ajudou Xi a navegar entre as correntes que disputam o poder dentro do Partido Comunista e a não cometer erros desde sua escolha como futuro presidente, em 2007. Nesse período, Xi revelou muito pouco do que pensa e do que pretende fazer depois de assumir o comando do país. No processo sucessório chinês, não há debates públicos nem programas de governo e os "vencedores" já estarão escolhidos antes de os delegados do Partido Comunista se reunirem para "votar" em outubro.

Ideologia. A maioria dos analistas acredita que Xi é um pragmático, simpático ao setor privado e favorável a reformas, pelo menos no campo econômico. "Ele não demonstrou nenhuma tendência ideológica particular, o que o coloca no campo pragmático e não no conservador e esquerdista do Partido Comunista", opina o professor David Shambaugh, especialista em China da George Washington University. Xi ocupou posições de comando em três das regiões mais abertas à economia de mercado na China: Fujian, Zhejiang e Xangai, localizadas na próspera costa leste.

O futuro presidente também fez mais viagens ao exterior antes de assumir o cargo que seus antecessores e em fevereiro realizou sua primeira visita oficial aos EUA, onde se encontrou com o presidente Barack Obama. Sua única filha, Xi Mingze, de 20 anos, estuda em Harvard. O analista político Chen Ziming acredita que a história pessoal de Xi Jinping o tornou "vigilante" em relação aos ideais relacionados à Revolução Cultural. "Ele fará de tudo para evitar um renascimento do pensamento esquerdista", prevê.

Muitos acreditam que a trajetória do pai de Xi Jinping é a chave para entender sua personalidade política. Depois de amargar 16 anos de perseguição, Xi Zhongxun foi reabilitado em dezembro de 1978, na mesma conferência do Partido Comunista que aprovou as reformas políticas idealizadas por Deng Xiaoping. De 1978 a 1981, Xi Zhongxun ocupou postos de comando na província sulista de Guangdong, o laboratório para a abertura que levou a China a abraçar a globalização.

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