REUTERS/Sergei Karpukhin
REUTERS/Sergei Karpukhin

Reaproximação com Cuba ajuda Putin em discurso nacionalista

Sem condições de competir com influência econômica chinesa, líder russo aposta em ideia de restabelecer base militar

Cláudia Trevisan, correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2017 | 20h00

WASHINGTON - A 9.500 km de distância de Moscou, Cuba desempenha um papel decisivo na narrativa nacionalista de Vladimir Putin e o ajuda a vender ao público doméstico a ideia de expansão da influência global da Rússia, avalia Vladimir Rouvinski, diretor do Laboratório de Política e Relações Internacionais da Universidade Icesi, da Colômbia.

Especialista na relação entre a Rússia e a América Latina, Rouvinski disse que o impacto dessa estratégia se reflete nas pesquisas de opinião. Quando perguntados em 2006 quais eram as nações amigas da Rússia, a maioria esmagadora dos entrevistados não mencionava nenhuma da América Latina. Dez anos mais tarde, três aparecem entre os dez primeiros colocados: Cuba, Venezuela e Brasil.

A Rússia vê a região e Cuba, em especial, como o “exterior próximo” dos EUA, o espelho da área formada pelas ex-repúblicas soviéticas onde Washington aumentou sua influência e presença militar. Ao fortalecer seus laços com Havana, Moscou estaria buscando contrabalançar a expansão americana em sua vizinhança.

O símbolo mais ostensivo desse movimento seria a criação de uma base militar. “Washington não gostaria de ver a presença militar russa a 145 km de sua costa”, observou Hannah Thoburn, especialista em Rússia no Hudson Institute. Mas ela ressaltou que Moscou terá de superar vários obstáculos antes de ter a capacidade de manter atividade militar permanente na ilha. A política hostil de Donald Trump em relação a Cuba poderá encorajar a China a ser mais agressiva na expansão de sua presença. 

A China é o principal parceiro comercial de Cuba e tem ampliado seus investimentos na ilha. No início do ano, a chinesa Haier abriu a primeira fábrica de computadores da ilha, com capacidade de produção de 120 mil unidades por ano. 

Empresas do país asiático também investiram nos setores farmacêutico e automotivo e em um resort de golfe nas cercanias de Havana. Além disso, bancos estatais chineses garantiram financiamento para construção de um terminal de contêineres em Santiago de Cuba.

A Rússia não tem o poderio econômico da China e tenta projetar influência por meio da cooperação militar e da propaganda. Mas os dois países poderão ver sua influência na ilha aumentar se Trump realmente congelar avanços na relação bilateral. “Cuba não tem muitas opções. Se houver interrupção do fluxo de recursos em razão da crise na Venezuela e a piora das relações com os EUA, eles terão de se aproximar de Moscou”, ressaltou Rouvinski. 

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