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Reaproximação tardia

Semana passada ocorreu a mais profunda transformação nas relações entre os Estados Unidos e Cuba em mais de meio século. Por que agora? A resposta surpreendente é que a biologia e a tecnologia criaram as condições que tornaram possível esse acordo.

MOISÉS NAÍM, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2014 | 02h03

A biologia determina tanto o envelhecimento dos irmãos Castro e de outros líderes cubanos de sua geração, como o de seus adversários no exílio, que estão localizados predominantemente nos EUA, no Estado da Flórida. Estas mudanças geracionais alteraram os antigos equilíbrios políticos dentro do regime cubano e na política eleitoral americana. A biologia interveio também na forma do câncer que vitimou o presidente Hugo Chávez. O desaparecimento do líder venezuelano contribuiu para aumentar o caos institucional que tornou este país petrolífero um benfeitor menos seguro para Cuba.

A tecnologia - em especial as inovações na extração de gás e petróleo - permitiu que os EUA revolucionassem o mapa energético do mundo. Entre outras coisas, forçou a queda dos preços do petróleo. Essa queda (impulsionada também pela redução do consumo mundial do petróleo bruto) debilitou ainda mais a já devastada economia venezuelana reduzindo assim sua capacidade de continuar mantendo Cuba. O regime de Havana viu-se então na necessidade de buscar uma alternativa econômica e, surpreendentemente, a encontrou em seu arqui-inimigo, os EUA. Diz muito do prognóstico que têm os bem informados cubanos do que vai se passar na Venezuela quando decidem abandonar seu generoso e incondicional país títere para se abrir aos investimentos, ao comércio e ao turismo americanos.

Nos EUA também ocorreram mudanças políticas que aplainaram o caminho do acordo entre Obama e Castro. A paralisia no Congresso e os resultados das eleições intermediárias que deram a maioria aos republicanos colocaram Obama diante da possibilidade de passar os dois anos que lhe restam na Casa Branca sem poder fazer muita coisa. Por isso, ele prometeu que se o Poder Legislativo não agisse, então "onde e quando eu puder tomar medidas sem o Congresso... eu o farei". Obama cumpriu a promessa e empreendeu reformas importantes. Ele agiu unilateralmente no campo da imigração, da mudança climática, dos empréstimos a estudantes e de outros temas sensíveis que até agora não puderam ser atendidos por outros presidentes. E agora decidiu agir sobre o fracassado, mas até agora politicamente intocável, embargo a Cuba. A idade avançada do exílio cubano nos EUA sem dúvida facilitou esta decisão. A geração de exilados cubanos que se opunha ferozmente a qualquer liberalização da política com respeito a Cuba tinha um grande peso eleitoral na Flórida. Mas essa geração está sendo progressivamente substituída por um novo grupo de eleitores cubano-americanos mais jovens e mais dispostos a explorar novas opções.

Por sua parte, o regime de Castro há muito vem adiando algumas reformas que, embora fortalecedoras de sua economia, significariam admitir o fracasso da revolução. Retardar a hora da verdade só foi possível graças ao enorme subsídio que a Venezuela vem concedendo a Cuba há mais de uma década. Mas este salva-vidas está ameaçado. Não há dúvidas de que o colapso econômico e o caos institucional da Venezuela foram fatores importantes para motivar o regime cubano a procurar alternativas para quando Caracas não puder prosseguir com o apoio de que depende a precária economia da ilha.

O que vai ocorrer agora? As consequências da nova relação entre EUA e Cuba são muitas e ninguém tem clareza sobre suas repercussões.

Mas é óbvio que esse acordo ajudará a economia cubana e, portanto, dará um respiro ao regime dos Castros. Mas também é óbvio que manter um brutal Estado policial e repressivo num país mais aberto e integrado ao mundo é mais difícil do que fazê-lo numa sociedade fechada, faminta, e cada vez mais pobre. Isso não quer dizer que a transição para a democracia em Cuba começou. Mas o acordo assinado sugere que o regime de Havana está condenado a abandonar muitas das até agora sagradas premissas que guiaram sua revolução. E, mais importante ainda, o acordo com os EUA sugere também que, se necessário, os líderes cubanos estão dispostos a esquecer a revolução para se manter no poder. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É ex-diretor executivo do Banco Mundial e membro do Carnegie Endowment for International Peace

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