Alejandro Pagani/AFP
Alejandro Pagani/AFP

Rearranjo de alianças determinará próximos passos do governo argentino, diz cientista político

Para Facundo Galván, administração de Fernández deverá conduzir delicadas negociações

Entrevista com

Facundo Galván, cientista político

Thaís Ferraz, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2021 | 20h22

Após fracassar nas eleições primárias e receber o anúncio de que cinco ministros colocaram seus cargos à disposição, o presidente argentino Alberto Fernández terá que conduzir longas e delicadas negociações, afirma o cientista político Facundo Galván, da Universidade de Buenos Aires. “Ainda não sabemos se Fernández vai aceitar essas renúncias ou se vai anunciar mudanças”, explica. “O que sabemos é que ele está reunido com seus outros ministros e ouvindo muita gente.”

Para Galván, as três facções majoritárias que compõem o governo argentino -- uma leal a Fernández, outra aliada à vice-presidente Cristina Kirchner e uma terceira reunida em torno de Sergio Massa, presidente da Câmara dos Deputados, lutam neste momento para definir a estratégia para as próximas eleições, que acontecem no dia 14 de novembro. “Não há unidade”, diz, acrescentando que negociações podem impedir a aliança de se romper.

Confira a entrevista:

O que está por trás do anúncio de que os ministros colocaram seus cargos à disposição?

É uma consequência direta das primárias de domingo passado. Usando uma analogia do futebol, cara aos brasileiros e argentinos: em equipe que está ganhando, não se mexe. As eleições foram um fracasso e agora o governo terá que pagar a conta. 

Esse anúncio era de alguma forma esperado após o fracasso nas primárias?

Não, ao menos quando se pensa em primárias. Há um antecedente, não desse governo. Quando Macri perdeu as primárias em 2019, ele mudou sua estratégia de política pública, seu gabinete, reorientou a economia. Mas ninguém esperava o que aconteceu hoje. Não é algo normal. O oficialismo também foi tomado de surpresa. Há um jogo entre facções distintas que estão lutando para definir a estratégia para as eleições (de novembro). Não se vê unidade no governo. Hoje há três facções majoritárias: a do presidente, a de Sergio Massa e a de Cristina. O kirchnerismo é forte, mas sozinho não consegue ganhar as eleições. Ele precisa estar associado a outros grupos para vencer.

O que este cenário significa para Alberto? E para Cristina?

Significa coisas diferentes para os dois. Se a facção de Cristina apresenta a sua renúncia, e a de Alberto não, então podemos ver claramente que a derrota não tem o mesmo significado para os dois.  Para Cristina, há intenção de fazer uma mudança no gabinete que aprofunde o modelo de políticas públicas como as que ela teve em seu governo. Para o presidente, não é assim. Temos que ver qual das duas interpretações irá se sobressair. O presidente aceitará? Haverá vácuo de poder ou o poder se manterá? Por agora, só há a negociação, uma negociação muito dura e delicada em aberto. 

Cristina sairá deste cenário com mais ou menos força?

Não sabemos. Intuímos que, se a aliança não se romper, é porque houve uma negociação. Não creio que ela sairá perdendo. Ela sem dúvidas está buscando mais poder, quer ter maior protagonismo. E como fica a imagem do presidente com isso? Se ele concede, há a pergunta: quem governa? a vice-presidente? É importante lembrar que, se Alberto quisesse depor seus ministros, ele o faria. É assim que o presidencialismo funciona. Os ministros deixarem seus cargos à disposição é algo simbólico. Alberto está agora escutando muita gente. 

A que devemos prestar atenção nos próximos dias?

O mais importante será ficar de olho na formação do gabinete. Se houver novos nomes, o que é provável, prestar atenção em quem são. Fazer um mapa com as carteiras dos ministérios para saber quais ministros, quais governadores respondem à Kirchner, quais respondem a Alberto, quais respondem a Sergio Massa. Eu prestaria muita atenção na nova organização. Temos que prestar atenção em com quem (Fernández) vai sair jogando para sair dessa derrota. E não só em como vai ser composto o gabinete, mas também o que esses membros irão propor. Saber se vão tentar reverter ou melhorar a situação de alguma forma, se vão tentar encurralar a oposição ou desenvolver uma política pública que agrade a classe média.

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