REUTERS/Gonzalo Fuentes
REUTERS/Gonzalo Fuentes

Rebeldes abandonados

Trump decidiu pôr fim ao programa de ajuda da CIA aos insurgentes seculares sírios

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

23 Julho 2017 | 05h00

Não é fácil ser a superpotência hegemônica no mundo. Espera-se dos Estados Unidos mais do que uma força armada e uma política externa são capazes de conseguir, em ecossistemas complexos como o do Oriente Médio, por exemplo. Os EUA são criticados quando intervêm e quando se omitem.

Se um presidente americano não pode atender às expectativas do mundo, pode ao menos perseguir um objetivo simples: o de não minar a credibilidade dos Estados Unidos. Entretanto, ela vem sendo sucessivamente solapada na pequena Síria.

Em 2013, o então presidente Barack Obama não cumpriu a ameaça contida na expressão “cruzar a linha vermelha”, ao advertir o ditador Bashar Assad a não usar armas químicas contra sua população. Obama temia a ascensão dos extremistas islâmicos. A omissão representou a primeira perda de credibilidade dos EUA.

No lugar de uma ação militar direta contra as forças sírias, o governo Obama limitou-se a criar um programa de treinamento e armamento de rebeldes árabes seculares, que chegaram a 10 mil combatentes. Os americanos nunca atenderam o pedido dos rebeldes de armas mais pesadas, como artilharia antiaérea, para atacar os aviões sírios e russos que bombardeiam suas posições. Obama quis evitar uma guerra por procuração com a Rússia.

Se não teve alcance suficiente para mudar o equilíbrio de forças entre rebeldes e regime, o programa serviu de justificativa para a intervenção militar russa na Síria, em favor do regime de Assad. A Rússia preencheu o vácuo de poder deixado pelos Estados Unidos.

Durante a campanha presidencial do ano passado, como parte da estratégia de colocar os interesses dos EUA em primeiro lugar, Donald Trump disse que concentraria o foco na Síria no combate ao Estado Islâmico, em vez de derrubar o regime.

Entretanto, em abril, três meses depois de assumir, ele ordenou o bombardeio de uma base síria, da qual haviam partido os aviões que realizaram um ataque com armas químicas contra a população no norte do país. Ele e funcionários de seu governo declararam então que a permanência de Assad era incompatível com uma solução para o conflito sírio.

Mais três meses se passaram e agora Trump muda de rumo novamente, retomando a linha adotada na campanha e no período de transição de governo. Segundo funcionários ouvidos pelo jornal The Washington Post, o presidente decidiu pôr fim ao programa de ajuda da CIA aos rebeldes seculares sírios.

Essa era uma antiga exigência do presidente da Rússia, Vladimir Putin, com quem Trump se reuniu no dia 7, durante a cúpula do G-20. No encontro, em Hamburgo, os dois combinaram um cessar-fogo no sudoeste da Síria. Trump disse depois que outras medidas impactantes seriam adotadas.

Comandantes rebeldes na Síria que recebem a ajuda americana foram informados da decisão por repórteres da agência Reuters e reagiram com um misto de incredulidade e revolta, sentindo-se “abandonados” pelos EUA no momento em que as forças pró-sírias, que incluem a milícia xiita libanesa Hezbollah, patrocinada pelo Irã, consolidam suas posições conquistadas no norte do país. 

É a segunda perda de credibilidade dos EUA em quatro anos, numa região que não tem o hábito de esquecer essas coisas. Como disse ao Washington Post um funcionário do governo americano, “Putin venceu na Síria.” E Bashar Assad também, mais uma vez com a ajuda indireta dos extremistas islâmicos, cuja ameaça é mais importante do que qualquer outra coisa, para os Estados Unidos e seus aliados europeus.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.