Gaia Anderson/AP
Gaia Anderson/AP

Rebeldes apertam cerco à cidade natal de Kadafi e negociam rendição de Sirte

Aviões da Otan bombardeiam pelo terceiro dia seguido o último reduto do ditador líbio e favorecem o avanço das forças insurgentes, que estariam a apenas 30 quilômetros do local onde muitos acreditam que o coronel esteja escondido

Andrei Netto ENVIADO ESPECIAL A MISRATA, LÍBIA e Lourival Sant?Anna ENVIADO ESPECIAL A TRÍPOLI, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2011 | 00h00

Os rebeldes líbios apertaram ontem ainda mais o cerco contra Sirte, cidade natal do ditador Muamar Kadafi, onde muitos acreditam que o coronel esteja escondido. Nos últimos dias, os insurgentes conquistaram várias localidades, como Bin Jawad, fundamentais para a conquista da cidade.

Aviões da Otan voltaram a castigar ontem Sirte pelo terceiro dia seguido. Na estrada que liga a cidade à capital, tanques T-55, tomados pelos insurgentes das forças de Kadafi, foram vistos a caminho do front. Jamal Tunally, comandante rebelde, disse que a linha de frente está a 30 quilômetros da cidade, mas que espera que as negociações em curso levem à rendição dos kadafistas.

O coronel rebelde Salim Miftah afirmou à TV Al-Jazira que os oposicionistas estavam negociando a rendição de Sirte. "Nosso principal objetivo é a liberação, não sangue", disse Miftah, acrescentando que, se as negociações fracassarem, levarão dez dias para capturar a cidade.

Segundo a Associated Press, Mussa Ibrahim, porta-voz do ditador, apresentou uma oferta de Kadafi para compor um governo de transição com os rebeldes. A proposta, porém, não foi bem recebida. "Não reconhecemos o governo anterior", respondeu Mahmoud Shammam, do Conselho Nacional de Transição (CNT). "São criminosos e vamos prendê-los em breve."

O comandante rebelde Ali Ahmed acusou ontem Kadafi de usar "escudos humanos" em Sirte. Segundo ele, o avanço rebelde pelo oeste foi contido porque as forças do ditador se misturaram com os moradores do vilarejo de Heesh, impedindo-os de fugir do combate.

Limpeza. O subchefe do Conselho Militar da capital, Mahdi Harati, disse ao Estado que os rebeldes controlam 90% da cidade. O restante são "bolsões de resistência leais a Kadafi". O comandante estima que levará seis semanas para Trípoli ficar "completamente limpa e calma".

Depois de três meses sem trabalhar, Mohamed al-Assairi vestiu ontem a camisa azul e calça preta da polícia e foi para a antiga Praça Verde, rebatizada Praça dos Mártires. Sua aparição, assim como a de três policiais de trânsito, foi saudada com buzinas e gritos pelos poucos motoristas no coração de Trípoli. Al-Assairi parou de trabalhar no início da rebelião, em fevereiro, mas não deixou de receber seu salário de US$ 173. Ele decidiu trabalhar depois de ouvir na TV o apelo do presidente do CNT, Mustafá Abdel Jalil.

Aos poucos, o comércio volta a reabrir em Trípoli. Sem água desde a tomada de Bab al-Azizia, quartel-general de Kadafi, na terça-feira, Abu Zeid foi comprar carne para as celebrações de amanhã pelo fim do Ramadã. Ele se queixou que o quilo da carne de camelo aumentou de US$ 10 para 12. O carneiro subiu mais: de US$ 7 para 15.

Misrata. Em Misrata, a 250 quilômetros de Trípoli, cada edifício e cada morador traz feridas do violento cerco empreendido por Kadafi. Durante três meses, a cidade viveu o assédio de tanques, soldados e atiradores de elite, mas também sofreu com a violência sexual, transformada em ato de guerra pelo regime.

Na Rua Tripoli, a principal da cidade, não há parede que não esteja destruída por disparos de fuzil e de lançadores de foguetes Grad, com os quais Kadafi tentou massacrar a oposição. A maior parte dos prédios está condenada e terá de ser demolida. Destroços de tanques e de veículos ainda se espalham pelas ruas, que começam agora a recuperar a normalidade com a abertura de parte do comércio.

Bem mais difícil de apagar que as marcas físicas de destruição é o sofrimento de quem passou pelo meses de cerco, bombardeios e perseguição. Amin Mohamed al-Kalush, de 21 anos, elabora o seu luto se lançando às batalhas.

Além de pegar em armas pela libertação de sua cidade, participou da batalha de Trípoli e agora se prepara para ir a Sirte. "Não será nada parecido com Misrata. Em Sirte, as pessoas gostam de Kadafi. Não será fácil", diz.

Lockerbie. Mohamed al-Alagi, ministro da Justiça do CNT, disse ontem que não pretende extraditar Abdel Basset al-Megrahi, condenado pelo atentado de Lockerbie, quando um Boeing 747 da Pan Am explodiu na Escócia, matando 270 pessoas. "Não entregaremos qualquer cidadão líbio ao Ocidente", disse. "Ele foi julgado uma vez e não será julgado novamente." Megrahi foi condenado à prisão perpétua em 2001, mas deixou a cadeia em 2009, depois que foi diagnosticado com uma doença terminal.

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