Andrei Netto/AE
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Rebeldes avançam com cautela na direção de Sirte

Tropas insurgentes estão estacionadas no deserto à espera de sinal verde para ataque, mas comando militar ainda negocia rendição

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL

ABUGRIN, LÍBIA

Rebeldes que realizam o cerco a Sirte, a 400 quilômetros de Trípoli, anunciaram ontem ter assumido o controle do vilarejo de Bwayrat al-Hasun, o último antes da cidade leal ao regime. Com isso, os insurgentes apertaram a pressão sobre a terra natal de Muamar Kadafi, que enfrenta um cerco imposto a oeste por revolucionários de Misrata e a leste pelo avanço dos insurgentes de Benghazi.

Apesar do esforço militar, os revolucionários mantiveram o prazo de mais dois dias para que a rendição negociada ocorra. Caso contrário, um novo confronto será inevitável. As tropas rebeldes estão estacionadas no deserto em posições que variam de 100 a 150 quilômetros de Sirte. Durante o dia, entretanto, chegam a ficar a 30 quilômetros da cidade, durante operações de reconhecimento.

O avanço generalizado das tropas até uma posição mais avançada é dificultado pelas condições geográficas da região, uma área do Deserto do Saara em que as temperaturas chegam a 40ºC e as condições de suprimento das tropas com combustível e alimento são precárias. "O front é móvel, pois é no meio do deserto e só há um ponto de reabastecimento, o que nos obriga a retornar", disse Omar Salem Adeyub, membro do comando.

Ontem, o Estado esteve na linha de frente no Deserto do Saara, nas imediações do vilarejo de Abugrin, distrito de Sirte, onde há muita expectativa.

Os confrontos travados são pontuais. Em um deles, ontem, dois soldados kadafistas foram presos - um deles ferido - quando realizavam uma missão de reconhecimento. O veículo em que estavam, com uma carga de armas e munições, foi destruído.

Apesar do choque, a região vive uma espécie de "guerra fria". A prioridade no momento são as negociações pela rendição dos 73 mil habitantes de Sirte, um dos últimos bastiões kadafistas no país.

Arsenal. De acordo com Adeyub, os rebeldes dispõem de 40 a 50 lançadores de foguetes BM-21 Grad - que pertenciam ao Exército -, além de mais de mil carros de guerra, entre tanques e veículos leves. "Não sabemos exatamente quantos eles são, mas não acreditamos que Kadafi tenha força suficiente para resistir. Somos mais poderosos", diz Adeyub.

Apesar da suposta superioridade, máquinas de guerra usadas pelos rebeldes na batalha de Trípoli, há dez dias, estão sendo deslocadas para Misrata e, de lá, para o deserto, nas imediações de Sirte, onde se prepara o novo front.

Nos 250 quilômetros da estrada que liga a capital a Misrata, o movimento de caminhões de carga transportando tanques e de veículos armados com metralhadoras pesadas era intenso. Uma vez que Trípoli já está sob controle rebelde, os veículos começaram a ser deslocados para a região de Sirte.

"Os tanques estão vindo de Zlintan para o front de Sirte. Eram os mesmos que Kadafi pretendia usar para destruir Misrata e agora serão usados contra ele", afirmou Sadi Mohtar Hadad, um dos líderes rebeldes da região.

Apesar do novo esforço militar, os revolucionários dão um prazo de dois dias para que ocorra a rendição negociada. As negociações estão em andamento com os líderes tribais locais, fiéis a Kadafi. "Não estipulamos um prazo preciso, mas temos dois dias a mais de negociações", disse Adeyub. "Não podemos esperar muito."

Banho de sangue. Ainda que impreciso, o prazo teria sido concedido com um objetivo específico: evitar um banho de sangue. Segundo Mohamed Abdala Ben Ras Ali, comandante da operação, o assalto está pronto, mas não deve ser necessário, pois parte da população de Sirte já teria abandonado Kadafi.

"Será como em Trípoli: haverá um levante no interior e então tomaremos a cidade", acredita. Menos otimista, Hassan Droy, representante do Conselho Nacional de Transição (CNT) para Sirte, lamentou a falta de avanço.

"Não posso dizer que tenha havido um progresso real, porque nós temos dificuldade com os leais ao regime. Eles dizem que a batalha não é mais por Kadafi, mas para protegê-los", disse o líder rebelde.

Impasse

HASSAN DROY

REPRESENTANTE DO CNT

"Não posso dizer que tenha havido progresso real. Os leais ao regime dizem que a batalha não é mais por Kadafi, mas para protegê-los"

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