Rebeldes denunciam atiradores do Hezbollah e Irã

Moradores do norte da Síria dizem ser cada vez mais comum a presença de estrangeiros a serviço do regime de Assad

ANTAKYA, TURQUIA, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2012 | 03h06

A participação de militares iranianos e de milicianos do grupo libanês Hezbollah, patrocinado pelo Irã, tem sido denunciada ao Estado por oposicionistas ao longo das últimas semanas. Dois irmãos garantiram ontem tê-los visto em seu vilarejo, Atareb, periferia de Alepo, no norte da Síria. O pedreiro Mustafa, de 39 anos, e o serralheiro Abd, de 25, dizem que todos se conhecem em Atareb, e têm certeza de que os franco-atiradores que abriram fogo contra eles são iranianos. Não falam árabe, usam barba e têm aparência diferente dos sírios.

Abd tem sorte de estar vivo, mas talvez não volte a caminhar. Há cerca de um mês, ele participou de uma manifestação contra o presidente Bashar Assad em Atareb. Franco-atiradores dispararam contra a multidão. Abd curvou-se para socorrer um ferido. Nesse momento levou quatro tiros de fuzil na altura do abdome - um na região lombar, um do lado esquerdo e dois no estômago. Eles acreditam que metade do vilarejo de cerca de mil habitantes estava na manifestação. Nove foram mortos, mas não se sabe quantos ficaram feridos.

Nas duas semanas que se seguiram, Abd vagou deitado em uma maca pelas montanhas do norte da Síria, com seu irmão Mustafa e dois amigos. Foi atendido por médicos que ajudam os feridos secretamente em hospitais móveis improvisados. Não havia condições de operá-lo.

Os feridos levados para os hospitais são tratados como prisioneiros. Um vídeo apresentado na semana passada pela emissora inglesa de TV Channel 4 mostrou marcas de tortura em pacientes acorrentados nas macas, chicotes e cabos elétricos em uma mesa, em um hospital público de Homs, centro-oeste do país. Vários médicos estão presos em Alepo por terem atendido feridos nesses hospitais clandestinos, disseram Mustafa e Abd.

Há duas semanas, eles conseguiram chegar à fronteira com a Turquia. Abd foi colocado em uma ambulância turca e levado para um hospital de Antakya. Passou por uma cirurgia e deverá ser submetido a outra dentro de quatro dias. Os médicos disseram que seu estômago foi muito comprometido. Ele se alimenta por sonda e não sabe quando terá alta. Em média, dez sírios dão entrada por semana no hospital, entre feridos vindos diretamente da Síria e moradores dos seis campos de refugiados, que abrigam 11 mil pessoas.

Policiais turcos nos corredores dos hospitais têm ordem de impedir o acesso dos jornalistas aos sírios feridos. Uma repórter, um cinegrafista e um fotógrafo da Associated Press foram detidos ontem por 6 horas pela polícia turca por tentarem entrevistar sírios cruzando a fronteira.

Os irmãos contam que Atareb está cercada por tanques e os telefones não funcionam. Os franco-atiradores disparam contra quem tenta se deslocar pelas ruas, como acontece em um grande número de bairros e vilarejos na Síria. Eles não têm notícia do restante da família e não querem divulgar seu sobrenome nem fotografar seus rostos, com medo de represálias contra os parentes. "Assad faz o que quer na Síria", disse Mustafa, enquanto Abd gemia de dor. "Ele e as pessoas que estão a seu redor são cães. Queremos que os outros países protejam os civis e deem armas ao Exército Livre da Síria." Eles ficaram sabendo que, depois que saíram, chegaram duas franco-atiradoras iranianas a Atareb. Antes eram todos homens.

Segundo os oposicionistas, o drama do regime é que, quanto mais usa o Exército, mais ele se divide e sofre deserções, pois muitos militares rejeitam abrir fogo contra civis. Os militares iranianos e os milicianos do Hezbollah não têm esse problema. / L.S.

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