Juliana Setembro
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Rebeldes divulgam ''nova Líbia'' no exterior

Segundo membro do CNT na Turquia, dinheiro tirado da casa de Kadafi na tomada de Trípoli paga viagens para difundir resultados da revolução

Wagner Vilaron, O Estado de S.Paulo

14 Setembro 2011 | 00h00

ISTAMBUL

Ahmed Hwedi chegou à idade militar. Aos 18 anos, o líbio considera-se um soldado. Mas como faz questão de dizer, em vez de farda prefere vestir-se com a bandeira da época da monarquia, usada pelo grupo rebelde que combate as forças leais ao governo de Muamar Kadafi e está ligado ao Conselho Nacional de Transição (CNT) da Líbia. A missão de Ahmed é simples, mas importante: deve divulgar "a causa" por onde passa fora de seu país.

"O primeiro passo do grupo foi derrubar a ditadura e assumir o controle", afirma o jovem, de aparência intelectualizada, que não pronuncia o nome do ditador. "Agora precisamos de reconhecimento, não só o oficial de outros governos, mas o dos cidadãos comuns. Buscamos legitimidade. Por isso alguns, como eu, deixam o país."

O jovem líbio falou ao Estado quando passava por Istambul, na Turquia. Chegou com alguns parentes à cidade turca no fim de semana, de barco, uma vez que o aeroporto de Trípoli estava fechado.

"O tempo da viagem e o números de lugares que visitaremos vai depender da quantidade de dinheiro que tivermos para custeá-la", explicou. "No momento, vamos ficar por aqui (Istambul) mais uma semana. Quero aproveitar para falar com o maior número possível de pessoas para despertá-las para o que ocorre em meu país."

A família Hwedi considera-se pobre. Fica, então, a questão: como bancam a passagem por Istambul? A resposta passa por uma espécie de ironia do destino. "Quando nosso grupo tomou o poder, conseguimos resgatar muito do patrimônio do povo líbio nas propriedades do ditador (Kadafi)", explica o jovem.

Sim, parte do dinheiro é proveniente dos saques que os rebeldes fizeram na casa de Kadafi e seus parentes. "Não roubamos nada, apenas resgatamos parte de tudo que o povo líbio perdeu nos últimos 40 anos. Ainda há muito o que resgatar."

Ahmed conta que não é o único encarregado de iniciar essa espécie de marketing político internacional do CNT. Pelo menos dois conhecidos dele também saíram da Líbia com o mesmo propósito nas últimas semanas.

"Não sei para onde foram. Creio que eles também não sabem do meu destino. Dizem que é um assunto de segurança interna, pois a seleção das pessoas obedece critérios muito rígidos. Eles querem porta-vozes na causa e não gente que aproveite a situação para migrar e nunca mais voltar para o país", diz.

Outro detalhe que chama atenção na situação de Ahmed é o fato de parte de sua família acompanhá-lo. Explica que a presença deles não foi uma exigência sua, mas uma determinação do grupo comandado por Mustafá Abdel Jalil, atual líder do CNT.

Depois de relutar alguns momentos, Ahmed mostra que a defesa da "causa" não o cegou para alguns problemas constatados no comportamento de alguns integrantes do grupo rebelde.

"Sabemos que muitos dos nossos exageraram e têm usado esse momento importante de nossa história para fazer vingança. Isso mostra despreparo para comandar", alerta.

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