Rebeldes do Quirguistão agradecem ''apoio russo''

Moscou é o primeiro a reconhecer governo de facto; presidente diz que não renunciará

, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2010 | 00h00

Sob ecos da disputa geopolítica entre Rússia e EUA na Ásia Central, a oposição do Quirguistão anunciou ontem a formação de um gabinete interino, um dia após derrubar o governo com grandes manifestações em todo país. O novo comando quirguiz agradeceu à Rússia pelo "apoio significativo" e Moscou foi o primeiro país a reconhecer a mudança em Bishkek. Autoridades de facto quirguizes já falam em retirar a base dos EUA do país.

A capital do Quirguistão amanheceu com carros em chamas e sinais de saques. O presidente deposto, Kurbanbek Bakiyev, que está refugiado na cidade de Osh, sul do país, disse que não renunciará e ofereceu "dialogar". O novo governo garante ter conseguido a adesão de todas as forças de segurança do país.

Em Praga, onde os presidentes Barack Obama e Dmitri Medvedev firmaram ontem o novo pacto nuclear, um alto funcionário russo disse que Bakiyev não havia cumprido sua promessa de fechar a base americana no Quirguistão. Segundo a autoridade, que pediu anonimato, só deve haver no território da ex-república soviética uma base - e russa.

Roza Otunbayeva, autoproclamada líder interina do Quirguistão pelos próximos seis meses, disse ter telefonado ao premiê russo, Vladimir Putin, logo após assumir. Segundo ela, o homem forte de Moscou teria perguntado como poderia ajudar. "Meu vice e o antigo chanceler irão à Rússia e formularemos uma lista com nossas necessidades", disse Roza. Na quarta-feira, enquanto a oposição em Bishkek tomava prédios públicos após choques que deixaram 75 mortos, Putin havia negado qualquer envolvimento russo nos distúrbios.

Mas os próprios manifestantes disseram o contrário. "A Rússia teve seu papel na queda de Bakiyev", garantiu Omurbek Tekebayev, líder da oposição que se tornou responsável por "assuntos constitucionais". "Agora há uma grande possibilidade de que o tempo de duração da base americana seja encurtado", completou. O comando militar da Rússia disse que enviará 150 paraquedistas para proteger cidadãos russos e a base que mantém no norte do país, a poucos quilômetros da americana.

Recusa de Washington. O Departamento de Estado dos EUA negou que a crise no Quirguistão tenha qualquer relação com a disputa russo-americana na Ásia Central.

"Aqueles que supostamente estão no comando - e enfatizo isso porque não está claro quem governa neste momento - são pessoas com as quais mantemos contato há muitos anos", disse Michael McFaul, conselheiro sênior da Casa Branca para assuntos envolvendo a Rússia. "Não se trata de um golpe antiamericano. Isso nós sabemos com certeza. Tampouco se trata de um golpe patrocinado pela Rússia."

McFaul, que integra a comitiva da Obama em Praga, declarou que o presidente americano e seu colega russo não conversaram sobre a questão quirguiz.

O Pentágono afirmou que sua base no Quirguistão continua a dar apoio às tropas no Afeganistão, embora tenha adotado restrições. O encarregado de negócios dos EUA em Bishkek já teria se encontrado com a chefe interina do governo quirguiz.

PARA ENTENDER

1.

Por que o governo quirguiz foi derrubado?

Alçado ao poder na "Revolução das Tulipas" (2005), Kurbanbek Bakiyev acabou entrando em choque com o Parlamento, cerceou a oposição (que ganhou forte adesão de ex-aliados do presidente), foi acusado de corrupção e deixou a economia ruir, com inflação galopante. Fortalecidos, opositores organizaram protestos e, apesar da brutal repressão, derrubaram Bakiyev

2.

Quem está no poder agora?

Não está claro. Roza Otunbayeva, ex-chanceler, diz liderar o governo interino, mas Bakiyev - refugiado na cidade de Osh - garante que não renunciará. As Forças Armadas e a polícia parecem ter aderido à revolta da oposição

3.

Por que o Quirguistão é importante para a Rússia?

Moscou não vê só o país como uma importante fonte de energia e um corredor para a Ásia Central, mas também como parte natural de sua "esfera de influência". Assim, a aliança de Bishkek com EUA e China incomoda a Rússia, que tem uma base em território quirguiz. Bakiyev visitou Putin, de quem recebeu a promessa de US$ 2 bilhões em troca do fechamento da base dos EUA

4.

Por que o Quirguistão é importante para os EUA?

A base americana de Manas foi instalada logo após o 11 de Setembro e é rota de suprimento para tropas no Afeganistão. O Quirguistão faz fronteira com a China e a presença americana contrapõe-se à histórica influência russa na região

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