Rebeldes e Assad condicionam cessar-fogo

Trégua obtida por mediador entre os dois lados da disputa na Síria deve começar hoje

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA , O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2012 | 03h01

O governo sírio anunciou ontem que respeitará um cessar-fogo de quatro dias proposto pela ONU para marcar o feriado muçulmano do Eid al-Adha. O regime alertou, no entanto, que se reserva o direito de reagir a qualquer movimentação de tropas ou ataques rebeldes. O Exército Sírio Livre (ESL), que combate o regime de Assad, também concordou com a trégua.

O anúncio foi feito horas depois de os rebeldes declararem a "liberação" de dois bairros no centro de Alepo considerados decisivos para o controle da cidade. O ESL condicionou a trégua à libertação de presos e teme que Assad se aproveite da situação para atacar.

Numa iniciativa paralela, o acadêmico brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro enviou uma carta a Assad, pedindo que a comissão de investigação sobre os crimes na Síria, que ele preside, seja autorizada a entrar no país de forma incondicional "para apurar informações sobre violações e crimes contra a humanidade".

A proposta de trégua foi feita pelo novo mediador da ONU e da Liga Árabe para a Síria, Lakhdar Brahimi, que tenta de alguma forma frear o conflito. O cessar-fogo não será monitorado por observadores independentes, uma vez que a missão da ONU na Síria foi extinta por falta de segurança.

Ontem, tanto China quanto Irã apelaram para que a trégua seja respeitada. Os EUA mostraram-se hesitantes, alertando que Assad já deu provas de que não mantém a palavra. Brahimi, nos bastidores, espera que o cessar-fogo, mesmo curto, abra brechas para um diálogo. "Podemos construir algo depois disso", afirmou.

Damasco indicou que estaria disposto a seguir o plano da ONU, mas não sem uma série de condições. "Por ocasião do Eid al-Adha, o comando-geral do Exército e das Forças Armadas anunciam a suspensão de operações militares no território sírio, do início da sexta-feira (hoje) até segunda-feira", afirmou o comunicado. Damasco reserva-se o direito de responder se "grupos terroristas armados abrirem fogo contra civis e forças do governo, atacarem propriedades públicas e privadas ou usarem carros-bomba ou explosivos."

Qualquer tentativa de armar os rebeldes nesse período ou de reforçar os grupos será motivo para interromper o cessar-fogo.

Qassem Saadeddine, um dos líderes rebeldes, também indicou que o cessar-fogo será respeitado, mas dentro de certas condições. "Não permitiremos que o regime reforce suas posições e exigimos que prisioneiros sejam libertados até sexta-feira de manhã", declarou. Certos grupos islâmicos disseram que não respeitarão a trégua.

A ONU afirma não ter confiança de que o cessar-fogo funcione. Ontem, o subsecretário-geral da entidade, Jan Eliasson, alertou que não havia garantia de que o acordo teria sucesso. "Mas esperamos muito que essa seja a ocasião para o início de um processo político", disse, acrescentando que "as esperanças são microscópicas".

Kofi Annan, que mediou a crise antes de Brahimi, chegou a declarar um cessar-fogo em abril, sem sucesso. De qualquer forma, agências da ONU revelaram ontem, em Genebra, que a entidade aproveitará o momento para prestar assistência e transportar alimentos e remédios para áreas e populações mais atingidas.

Crise. Em locais como Homs e Hassaka, 65 mil pessoas que até hoje não tinham sido atendidas pela ONU deverão receber alimentos e abrigos para o inverno que se aproxima. O Programa de Alimentos da ONU promete distribuir mantimentos para 90 mil pessoas nas áreas mais problemáticas do país. Nas horas anteriores à prometida trégua, combates pelo controle de Alepo deixaram 14 mortos.

Investigação. A comissão chefiada pelo acadêmico brasileiro tem até janeiro para preparar o relatório final de mais de um ano de investigações. "Pretendemos ir sem précondições iniciais para um encontro com Assad para discutir o acesso de nossa comissão à Síria", declarou Pinheiro. Ele visitou a Síria em junho, mas sem o mandato da comissão. Agora, ele insiste que o trabalho não pode ser concluído sem uma visita ao país. Pinheiro já entregou à ONU duas listas de pessoas e grupos ligados ao regime e à oposição síria envolvidos em homicídios, sequestros e tortura. De acordo com a ONU, o conflito já deixou mais de 32 mil mortos.

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