Rebeldes forçam recuo das forças de Kadafi

Bombardeios da coalizão parecem ter equilibrado os confrontos, destruindo tanques, aviões e barcos das tropas de elite

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2011 | 00h00

As tropas leais a Muamar Kadafi e os combatentes rebeldes lutavam ontem na estrada de 150 km entre Bin Jawad e Sirt, cidade natal do ditador e reduto de sua tribo. Depois de avançar 270 km em apenas 24 horas no fim de semana, os rebeldes enfrentavam ontem resistência maior das tropas de Kadafi, que receberam reforços de Trípoli. Mesmo assim conseguiram fazê-las recuar no decorrer do dia, na sua contraofensiva em direção à capital.

De madrugada, chegou a Benghazi a notícia, divulgada pela rede de TV Al-Jazeera, de que Sirt, 555 km a oeste, teria caído nas mãos dos rebeldes. A "capital rebelde" não dormiu mais. Os rebeldes celebraram disparando peças de artilharia, granadas propelidas por foguetes e fuzis. Mas não era verdade.

Por volta do meio-dia, a linha de frente do conflito estava no vilarejo de Naufaliya, 130 km a leste de Sirt. No fim da tarde, rebeldes e membros das kataeb, as brigadas leais a Kadafi, lutavam perto da Entrada 80, fortemente guarnecida, 80 km a leste da cidade portuária. Os dois lados enfrentavam-se com peças de artilharia montadas sobre caminhonetes e baterias de foguetes Grad.

As barreiras dos rebeldes só estavam deixando passar combatentes com peças de artilharia. Os rebeldes armados apenas de fuzis eram instruídos a guarnecer os postos de controle. Os bombardeios da coalizão parecem ter equilibrado os confrontos, destruindo os tanques das kataeb, as brigadas de elite de Kadafi, além de neutralizar seus aviões, helicópteros e barcos.

Na faixa de 230 km entre Benghazi e Brega, o Estado contou 55 tanques, 41 caminhões, 6 baterias de foguetes Grad, 45 caminhonetes e 6 ônibus das forças de Kadafi, destruídos pelos bombardeios da coalizão nos últimos 9 dias. A partir de Brega, já não se encontra equipamento pesado. Isso indica que as forças do regime concentraram esse equipamento no leste, na tomada e ocupação dos complexos petrolíferos de Brega e Ras Lanuf (150 km a oeste de Brega) e na ofensiva contra Benghazi, contida pelo primeiro bombardeio francês, no dia 19. O restante dos tanques é empregado na ofensiva contra Misrata, 203 km a leste de Trípoli, e provavelmente na guarnição da própria capital.

As forças da coalizão continuam bombardeando alvos em Trípoli e em outros pontos do país. Além de destruir o armamento pesado, os bombardeios também têm cortado as linhas de suprimento das forças de Kadafi, isolando-as e diminuindo sua capacidade de resistir aos avanços rebeldes. As longas distâncias desérticas que separam as cidades e complexos petrolíferos disputados agravam a vulnerabilidade das kataeb aos bombardeios.

Uma vez destruído seu armamento pesado, os combatentes rebeldes, em maior número e com suas linhas de suprimento preservadas, levam vantagem nas batalhas terrestres. As forças de Kadafi fugiram correndo no fim de semana de Ajdabiya, deixando para trás todos os veículos pesados, incluindo os intactos, e munição. Os rebeldes estão recolhendo esse butim. No início da noite de ontem, quatro caminhões, cada um transportando um tanque, dirigiam-se a Benghazi. Uma carreta carregada de caixas de munição aguardava na beira da estrada entre Ras Lanuf e Brega.

Há também uma maior organização e presença de soldados do Exército regular rebelde. "Não encontramos nenhuma resistência em Bin Jawad", disse Sensad Kasmi, um soldado de 28 anos, de um quartel de Benghazi. Kasmi disse que havia "muitos" militares lutando ao lado dos voluntários civis. Na entrada de Bin Jawad, 422 km a oeste de Benghazi, era distribuído ontem um panfleto do Conselho Provisório Líbio, a liderança rebelde civil, pedindo aos combatentes que obedeçam às ordens dos oficiais no campo de batalha e não ajam por iniciativa própria. O texto recomenda que não espalhem notícias de grande número de mortos rebeldes, para não amedrontar os combatentes.

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