Rebeldes improvisam governo no leste

Depois de declararem a região 'liberada' do regime de Kadafi, insurgentes formam comitês populares para garantir ordem e segurança

Kareem Fahim, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2011 | 00h00

Os rebeldes contaram que pegaram um espião no edifício do tribunal, o centro nevrálgico do levante em Benghazi, gravando vídeos com uma câmera de celular. A resposta foi rápida. Os promotores o interrogaram na quinta-feira, e os rebeldes contaram que pretendiam prendê-lo. "Queremos saber se ele está sozinho", disse Fathi Terbil, o advogado cuja prisão desencadeou a rebelião na Líbia e agora é um dos seus líderes.

Na cidade onde o levante líbio começou, advogados, promotores, juízes e cidadãos comuns que se opõem ao governo do coronel Muamar Kadafi estão se adequando a papéis com os quais não estavam familiarizados: eles são os guardiães de uma rebelião em curso e, ao mesmo tempo, são a lei e a ordem na segunda maior cidade da Líbia.

No entanto, eles temem que suas conquistas lhes sejam roubadas por pessoas e grupos que apoiam Kadafi, que ainda mantêm uma presença em Benghazi apesar do aparente controle dos rebeldes.

Desde domingo, quando as forças do governo se retiraram e Benghazi se tornou a primeira cidade importante a cair sob o controle dos rebeldes, estes e os próprios habitantes procuram esboçar por conta própria os planos para uma nova maneira de viver e de governar.

Na quinta-feira, os frutos deste esforço começavam a tomar uma forma ainda que primitiva. Um juiz, ainda vestido com a toga, andava no meio do trânsito, ordenando aos motoristas que colocassem o cinto de segurança. Num outro cruzamento, três jovens ajudavam um policial a orientar os motoristas num engarrafamento de trânsito.

Dezenas de bancos abriram as portas e, no fim da tarde, as lojas que estavam fechadas havia dias, começaram a abrir também.

Na nova ordem que se instala em Benghazi, o edifício do tribunal, em frente ao Mediterrâneo, tornou-se a sede do poder rebelde e a Câmara Municipal.

Uma bateria de comitês recentemente criados reúne-se para discutir sobre segurança, negociar com o Exército e organizar a volta das pessoas ao trabalho.

"Precisávamos de instalações temporárias para gerir a vida de todos os dias", disse Imam Bugaighis, uma ortodontista que se tornou a porta-voz do governo provisório. Ela contou que a irmã, advogada, também ajuda a organizar o esforço, cuja liderança ainda não tem uma direção firme.

Advogados e juízes estiveram na vanguarda do levante. "Eles estão no controle", disse Bugaighis, mas acrescentou: "Ninguém está no controle".

Cenas de violência. Depois que a revolta da Líbia começou no dia 16, houve lutas intensas nas ruas. O hospital da cidade ainda tenta atender a todos os sobreviventes que foram levados ali. No auge da revolta, eram cerca de cem pessoas por dia com ferimentos de bala e de outros tipos, segundo o diretor, que se identificou apenas como Abdullah porque os agentes do governo continuam à espreita. "Sofremos ameaças durante mais de 40 anos", disse.

Homens com ferimentos graves estavam na unidade de terapia intensiva do hospital e, segundo os médicos, não tinham muitas chances de viver. Entre eles, um jovem de 30 anos, cujo peito estava cheio de fragmentos de bala. "Está em coma profundo", disse Abdullah. Ele contou que 140 pessoas morreram durante o levante na cidade, mas os líderes rebeldes falaram em 300. Segundo os médicos, muitos pacientes chegaram com ferimentos de bala na cabeça e no peito. Muitos ficaram paralisados.

No necrotério, nove sacos verdes continham restos carbonizados. Abdullah disse que foram recuperados na base militar local e eram de soldados executados e depois queimados por seus comandantes porque se recusaram a atirar em civis. Mas não tinha muita certeza. "Foi um caos", afirmou. O caos começou com a prisão de Terbil, um advogado que representa as famílias dos que foram mortos em um massacre de mais de mil presos na cadeia de Abu Slim em Trípoli, em 1996.

As famílias pretendiam participar dos protestos no dia 17. As autoridades prenderam Terbil no dia 15, na esperança de deixar os manifestantes sem seu líder.

Durante uma entrevista em uma sala do tribunal, na quinta-feira, ele contou que seu interrogatório durou mais de dois dias, enquanto pessoas que o apoiavam protestavam do lado de fora da delegacia de polícia onde ele estava preso.

Usando ameaças e métodos menos fortes, as autoridades disseram que ele devia acabar com as manifestações. "Eu disse aos policiais que tudo já estava no Facebook e no Twitter. O processo não pode parar. Mas é possível fazê-lo de maneira pacífica". O policial respondeu: "Não podemos permitir protestos desse tipo. Muito sangue correrá".

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