Aris Messinis/AFP
Aris Messinis/AFP

Rebeldes líbios exibem presos como troféus

Combatentes de oposição em Benghazi organizam ''tour'' para jornalistas em ex-quartel-general dos comitês aliados a Kadafi

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL

BENGHAZI, LÍBIA

O médico e professor Omar al-Sudani é exibido como um troféu na base da Polícia do Exército, no leste de Benghazi. Segundo a liderança rebelde, ele era uma das figuras mais importantes no aparato de segurança do regime de Muamar Kadafi na cidade.

Preso há três dias, ele ficou famoso após ter sido acusado de ter feito o disparo de dentro da Embaixada da Líbia em Londres que matou a policial britânica Ivonne Fletcher, durante uma manifestação contra o regime em 1984, levando ao rompimento das relações entre Grã-Bretanha e Líbia.

Al-Sudani foi mostrado aos jornalistas durante um "tour", de ônibus, organizado pela liderança rebelde, para visitar prisioneiros na base da polícia e no quartel-general dos "lejan thowria", literalmente comitês revolucionários, que apoiavam o regime. Al-Sudani negou seu envolvimento no assassinato da policial. Disse que no momento do assassinato ele estava detido por causa de uma altercação com um policial. E disse que se afastou de Kadafi em meados dos anos 90.

Diretor do Departamento de Saúde Pública da Universidade Médica de Benghazi, Al-Sudani não negou ser membro dos comitês revolucionários, mas ressalvou: "Nem todos os membros dos lejan thowria pertencem ao aparato de segurança." Dos cerca de 8 mil membros dos comitês em Benghazi - conforme listas encontradas no Ministério do Interior -, cerca de 2 mil tinham armas e treinamento militar, constituindo uma milícia. Os outros eram informantes do regime.

Al-Sudani foi preso no domingo no Centro Médico de Benghazi (CMB), onde trabalhava, depois de um confronto entre os milicianos dos comitês e combatentes rebeldes. Um dos principais hospitais de Benghazi, o CMB foi usado como base dos mercenários africanos, assim como os dois maiores hotéis da cidade, nos primeiros dias do levante, há um mês.

Os rebeldes garantem que ele e os outros prisioneiros de guerra, como são chamados, serão julgados por um tribunal militar. No pátio da base, foram colocados, de um lado, os "mercenários africanos": 9 do Chade, 6 do Níger, 5 do Mali, 3 do Sudão, 2 de Gana e 1 da Gâmbia. Do outro lado, 30 militares líbios. Os dois grupos disseram que são bem tratados.

Um militar afirmou que os comandantes lhes haviam dito que "africanos estavam matando líbios em Benghazi" e viriam defender a cidade. Outro disse que foi arregimentado para uma manifestação pacífica em Ras Lanuf (380 km a oeste de Benghazi), e ao chegar lhe deram armas.

Havia até um general do Exército regular, Mohamed al-Adi, de 57 anos, que tinha hematomas e escoriações no rosto. Ele disse que tinha sido espancado por civis, depois de se render numa fazenda perto de Ras Lanuf, e antes de ser entregue aos combatentes rebeldes.

À pergunta sobre por que se rendeu, o general respondeu: "Porque não gosto de Kadafi nem que os líbios se matem uns aos outros." Os rebeldes têm uma história diferente sobre o general: ele teria sido preso na entrada de Benghazi, com o comboio que atacou a cidade no sábado.

No quartel-general dos lejan thowria, os rebeldes exibiram três acusados de integrar os comitês. Um deles, Muftah al-Kadiki, é jornalista e trabalhava para o jornal Al-Zahef Akhthar, do governo. Hissam Jebala el-Towati diz que se rendeu assim que começou a rebelião. A história de Abdul-Ibrahim Besseifi é mais intrincada. Ele foi preso no domingo em Ajdabiya, nos combates entre rebeldes e as forças do governo. Disse que tinha passado para o lado dos rebeldes e foi lutar contra as forças do governo. "Foi um erro não ter avisado que eu tinha me juntado à revolução", lamentou Besseifi.

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