Francois Mori/AP
Francois Mori/AP

Rebeldes líbios põem fim a cessar-fogo e avançam contra redutos de Kadafi

ENVIADO ESPECIAL / TRÍPOLI

Lourival Sant?Anna, O Estado de S.Paulo

10 Setembro 2011 | 00h00

Um dia antes de vencer o prazo final dado pelo Conselho Nacional de Transição (CNT) para as forças leais a Muamar Kadafi se renderem, os combatentes do governo de transição avançaram ontem em direção a Bani Walid e Sirte, dois dos três últimos redutos do regime. A ofensiva, que pôs fim a mais de uma semana de cessar-fogo não declarado na Líbia, foi desencadeada por disparos de foguetes Grad pelas forças pró-Kadafi nas duas cidades.

A emissora saudita de TV Al-Arabiya noticiou à noite que 23 soldados pró-Kadafi tinham sido mortos e 9, capturados. Já a agência Reuters informou que, segundo Abdallah Kanshil, do CNT, um combatente do governo provisório foi morto e quatro feridos em Bani Walid, enquanto três soldados pró-Kadafi morreram, três ficaram feridos e sete foram capturados. Kanshil acrescentou que os combatentes já estavam a 2 km do centro da cidade - de 100 mil habitantes e a 150 km a sudeste de Trípoli. Reforços do CNT chegaram também a Sabha, o outro reduto do regime disputado com as forças de Kadafi.

Bani Walid é reduto da tribo warfallah, a mais populosa da Líbia, com 1 milhão de habitantes, e principal contingente de apoio ao regime, pelo menos até o início da guerra civil, em fevereiro.

Kanshil estimou que haja 600 soldados pró-Kadafi em Bani Walid. No início da semana, os combatentes diziam que eles eram entre 100 e 200. Há suspeitas de que dois filhos de Kadafi, Saif al-Islam e Mutassem, possam estar na cidade. O primeiro era preparado para ser sucessor de Kadafi e o segundo chefiava o Conselho de Segurança Nacional.

O assalto a Bani Walid preocupa o CNT por causa das possíveis consequências políticas de um eventual banho de sangue. Em parte, as declarações do primeiro-ministro interino, Mahmud Jibril, na quinta-feira, quando pediu a reconciliação nacional, foram destinadas a apaziguar a tribo warfallah, à qual ele pertence, e os homens armados leais ao regime em Bani Walid.

O médico Mohamed al-Fortia, integrante do comando da Brigada de Misrata, que forma o grosso das forças do CNT no assalto a Bani Walid, disse ontem à noite ao Estado que um general pró-Kadafi lhe telefonou e pediu ajuda para render-se. O general disse estar no comando de 150 soldados, que o acompanhariam na rendição.

Os combates nas proximidades de Sirte, 450 km a leste de Trípoli, começaram também com os disparos de foguetes Grad das forças kadafistas contra posições do CNT ao redor da cidade de 140 mil habitantes. "Eles atacaram nossas forças e tivemos de responder a eles", afirmou o coronel da Força Aérea Ahmed Bani, porta-voz do Conselho Militar.

Mais cedo, Omar Hariri, responsável pela ligação entre o CNT e o Conselho Militar, tinha dito ao Estado que a batalha por Sirte seria bem mais difícil que em Bani Walid. À pergunta sobre se poderia estar correto o número citado por Saif al-Islam, de que haveria 20 mil soldados pró-Kadafi dispostos a lutar "até a morte" em Sirte, cidade natal do ditador, Hariri sorriu: "De jeito nenhum".

Fontes militares do CNT disseram à Reuters que entre 100 e 150 veículos dos combatentes dirigiram-se ontem para Sabha, 700 km ao sul de Trípoli. Outros comboios deveriam partir hoje. Além de Sabha ser a terceira maior cidade da Líbia e tradicional reduto de Kadafi, tem posição estratégica no Deserto do Saara, por onde o ditador e seus parentes poderiam tentar fugir.

O embaixador da Líbia em Niamey, capital do Níger, pediu ao governo nigerino que pare de conceder refúgio a autoridades do regime Kadafi. O chefe de segurança interna de Kadafi, Mansur Dao, e pelo menos dois generais refugiaram-se no Níger. O governo americano também pressiona o país a entregar as ex-autoridades líbias que tenham contas a prestar na Justiça.

Mohamed al-Fortia disse ao Estado que combatentes do CNT sob o comando do general Hussein Ekoni, colega de Kadafi na Academia Militar, estão se preparando para tomar a região montanhosa de Ghat, no sudoeste da Líbia, na fronteira com a Argélia e o Níger, com o objetivo de evitar o reagrupamento das forças pró-Kadafi na região e a fuga do ditador para os países vizinhos.

 

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