Rebeldes maoístas aceitam negociações de paz com governo do Nepal

Os rebeldes maoístas concordaram nesta quinta-feira em participar de negociações de paz com o novo governo do Nepal, dizendo que os protestos que forçaram o rei Gyanendra a restaurar a democracia criaram um "movimento histórico" no país.O anúncio faz crescer as esperanças de que o empobrecido país do Himalaia possa aproveitar o clima de mudanças para alcançar a estabilidade e proporcionar melhores condições de vida para a população.Na quarta-feira, o recém-formado gabinete convocou os rebeldes a retornarem à mesa de negociações, em face do cessar-fogo de três meses proposto pelos maoístas. Em cerca de uma década de insurgência, 13 mil pessoas foram mortas na violência. Além disso, o novo gabinete também anunciou a retirada das acusações de terrorismo contra os rebeldes, inclusive pedindo que a Interpol cancele as ordens internacionais de prisão de líderes maoístas."Recebemos isso como medidas positivas. Acreditamos que, desta vez, as negociações não fracassarão como as duas anteriores, porque agora há um movimento histórico por trás", disse o chefe dos rebeldes, Prachanda. Ele revelou que os rebeldes propuseram um código de conduta para as negociações de paz e que espera que "o governo os implemente" durante o processo.Juntamente com a aliança de sete partidos que agora governa o país, os rebeldes maoístas tiveram um papel-chave nas três semanas de protestos que forçaram o rei a abrir mão de poderes absolutos e deixaram um saldo de 17 mortos. Agora, os maoístas querem fazer parte da cena política institucional.Negociações de pazDiferentemente das fracassadas negociações de paz de 2001 e 2003, o governo agora aceita a principal exigência dos rebeldes, que é a convocação de uma Assembléia Constituinte.O ministro do Desenvolvimento e Cooperação da Noruega, Erik Solheim, que já atuou como negociador de paz no Sri Lanka, disse que o mundo deve ajudar o Nepal. "A comunidade internacional deve ter um papel no apoio ao processo de paz e ao desenvolvimento do Nepal", disse, em sua visita de três dias ao país, depois de se encontrar com o premiê Girija Prasad Koirala. "Mas o governo e os maoístas devem dirigir o processo. Eles terão que tomar todas as decisões."Madhav Kumar Nepal, do Partido Comunista, concordou. "O Nepal não precisa de mediação, mas precisa que a comunidade internacional monitore o cessar-fogo", disse."O processo para acabar com a insurgência não será completamente tranqüilo", previu na quarta-feira o secretário-assistente de Estado dos EUA, Richard Boucher, que também visitou o país. Segundo ele, os rebeldes terão de provar que estão prontos para abrir mão da violência antes que Washington os retire de sua lista de grupos terroristas.O líder dos rebeldes respondeu pedindo para Washington parar de se intrometer. "Para o bem dos esforços de paz e da democracia no Nepal, pedimos à população e às forças políticas para que não permitam a interferência e ameaça norte-americanas", disse Prachanda. Violência Apesar da declaração de trégua de três meses, os rebeldes espancaram até a morte dois supostos ladrões no sul do país na quarta-feira, informou uma fonte do governo local.Os dois homens eram acusados de roubar residentes de Ganjabhawanipur, vilarejo em uma área com forte presença maoísta, a cerca de 160 quilômetros de Katmandu.Ainda assim, o clima é de otimismo. "Acreditamos que as negociações de paz terão sucesso, porque, ao contrário dos outros governos, dessa vez contamos com o apoio popular", disse Krishna Sitaula, ministro do Interior.

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