Rebeldes sírios abrem rota que acelera envio de armas da Turquia para Alepo

Resistência. Enquanto batalha por Alepo segue indefinida, a província de mesmo nome, por onde oposição recebe arsenais da Arábia Saudita e do Catar, passa progressivamente ao controle dos insurgentes; deserções teriam abalado poder do Exército regula

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL, PROVÍNCIA DE ALEPO, SÍRIA, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2012 | 03h05

Durante quase uma semana, as Forças Armadas de Bashar Assad prepararam o que prometia ser um ataque fulminante sobre os rebeldes de Alepo, no norte da Síria. Três dias depois do início da ofensiva, os insurgentes resistem e abrindo no noroeste do país um território livre da ditadura de 41 anos. Na Província de Alepo, o domínio dos ativistas tornou-se ainda mais amplo com a conquista de uma rota ligando a capital econômica do país à Turquia, de onde recebem armas.

O Estado circulou nos últimos dias por vilarejos situados ao norte da Província de Alepo, e a constatação em todos é a mesma: as Forças Armadas não estão mais no poder. Do norte da capital regional até a fronteira com a Turquia, incluindo os postos de imigração, a Síria é um campo abandonado, em que os rebeldes exercem a autoridade perdida pelo regime. Por caminhos de terra e rotas vicinais, os insurgentes também vêm transportando víveres, combustível e armamento, o que por ora lhes está garantindo a resistência na cidade de Alepo.

O sinal mais claro dessa hegemonia foi a tomada ontem de um posto de controle do Exército em Anadan, cinco quilômetros ao noroeste da cidade. Os combates pelo ponto teriam durado cinco horas, de acordo com o general Ferzat Abdelnasser, um dos coordenadores da rebelião na região.

O posto de controle é considerado estratégico por estar em uma rodovia que liga Alepo à fronteira com a Turquia, em um trajeto de 45 quilômetros. Com isso, os insurgentes podem passar a receber mais armas de seus atuais fornecedores, a Arábia Saudita e o Catar, além de equipamentos de comunicação da França, da Grã-Bretanha e dos EUA.

Além de Anadan, os vilarejos de Gayan e Kandab al-Jabal vêm sendo bombardeados e assediados com rajadas de metralhadoras a partir de helicópteros nas últimas horas, conforme a ONG oposicionista Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH). Também houve combates na cidade de Saraquin e nos vilarejos de Al-Mastouma e Feilun, na província vizinha de Idlib, a oeste de Alepo, onde o controle também é disputado entre rebeldes e forças do regime.

Na maior parte dessa região, o controle insurgente é irrestrito. Há vilarejos em que o poder ainda está dividido, e onde shabihas - ou "fantasmas", as milícias de mercenários pró-Assad - e agentes de inteligência leais ao regime ainda não foram capturados. Mas esses casos se tornam cada vez mais as exceções.

No percurso de 37 quilômetros entre a cidade de Alepo e Marea, militares chegam a estar enclausurados na chamada Escola de Rangers, impotentes. "Esperávamos encontrar uma grande resistência, mas a adesão das pessoas foi muito grande", disse ao Estado Abdulnasser Khatib, 40 anos, líder de uma "katiba" - um grupo rebelde da região. "Nosso plano era ter assumido o controle de algumas áreas nos últimos seis ou sete dias. O que fizemos foi tomar quase toda a província e assumir o controle de 60% da cidade, além de resistir ao Exército", surpreende-se.

Segundo chefes militares rebeldes com os quais a reportagem teve contato enquanto esteve na Síria, as chances de que a destruição ocorrida em Deraa e Homs ocorra agora em Alepo são menores, pois o Exército teria perdido grande parte de seu poder - o que explicaria as dificuldades das forças de Assad no início da atual ofensiva sobre a cidade.

Deserções. Uma das possíveis razões para a consolidação - ao menos temporária - dos rebeldes no norte da Síria são as centenas de deserções no Exército. Além de generais, como Manaf Tlass, ex-amigo íntimo de Assad, os rebeldes têm assediado soldados comuns a trocar de lado. Há vários meses, eles se valem de militares insatisfeitos, mas ainda em suas posições, para convencer dezenas de outros a renunciar à violência contra a população civil.

Taha Ahmad, 31 anos, médico veterinário e militar, é um exemplo. Durante mais de um ano, ele atuou em favor dos rebeldes no interior do Exército. "Comecei a me conscientizar sobre os massacres cometidos pelo regime e pelos shabiha, até o momento em que não aguentei", diz ele. No intervalo de alguns meses, convenceu 23 soldados a aderir à rebelião e agora todos pegam em armas contra o regime. "Os soldados não sabem ao certo o que se passa no país, e só os comandantes têm a noção clara de tudo", diz o ativista. "Muitos tinham medo da reação do Exército, mas agora perceberam que a revolução é possível."

Militares pró-Assad disseram ontem ter vencido a batalha pelo bairro de Salahedine, no oeste de Alepo, mas os rebeldes continuavam ontem a impor resistência aos legalistas. A região é o epicentro da atividade rebelde na cidade e pode ser decisiva para a retomada ou para a perda definitiva da região noroeste da Síria. Ao todo, 125 pessoas, entre civis, militares e rebeldes, teriam morrido em combates no domingo.

Ontem, Khaled al-Ayoubi, o principal diplomata sírio em Londres, abandonou o posto, afirmando que não pode mais representar o regime Assad em razão dos atos violentos, informou a chancelaria britânica.

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