Rebeldes ucranianos perdem terreno

Milícias de Donetsk e de Luhansk recuam e cedem espaço na luta contra Exército

ANDREI NETTO , ENVIADO ESPECIAL , DONETSK / UCRÂNIA, O Estado de S.Paulo

27 Julho 2014 | 02h03

Quatro meses após o levante de separatistas no leste da Ucrânia, as Forças Armadas de Kiev estão recuperando terreno e sufocando o movimento pró-Rússia que quase provocou a implosão do país. Nos últimos 60 dias, as milícias perderam cerca de 30% do território da autoproclamada República Popular de Donetsk.

Pela região, rumores garantem que o governo de Petro Poroshenko pretende tomar Donetsk até 24 de agosto, data da independência ucraniana.

Na última semana, o Estado rodou centenas de quilômetros por grandes cidades, como Donetsk, e uma dezena de municípios e vilarejos do leste, como Snijne, na fronteira com a Rússia, e Izyum, na região de Slaviansk. Antes redutos separatistas, esses locais são alvos de ofensivas militares ou já foram recuperados pelos 30 mil soldados do Exército, equipados de tanques e carros blindados, artilharia pesada e aviões.

O avanço das tropas ucranianas é perceptível. Ao longo da semana, a bandeira azul e amarela voltou a tremular em cidades como Dzerjinsk, de 75 mil habitantes, em Severodonetsk, de 110 mil, ou Lysychansk, de 105 mil. O mesmo já havia acontecido em Snijne, Izyum e Slaviansk, na semana anterior. Netailovo, base separatista em uma das entradas de Donetsk, caiu nas últimas horas. Na Avenida Ilycha, de oito postos de controle separatistas, quatro estavam abandonados, como ocorreu nas imediações do local da queda do voo MH17 da Malaysia Airlines.

O recuo é admitido até por líderes separatistas. "Deixamos Karlovka, Netailovo e Pervomaiskoye. As poucas forças que tínhamos nessas cidades corriam o risco de serem cercadas e aniquiladas", disse à agência russa RiaNovosti Igor Strelkov, comandante das forças da República Popular de Donetsk.

Ainda que a cada cidade retomada o número de mortos seja baixo, o custo humano da guerra é cada vez mais elevado. Dados indicam que o número de mortos já se aproxima de 2 mil - cerca de 300 soldados, mil milicianos e 550 civis, que se somam às 298 vítimas do MH17.

Além disso, em torno de 230 mil pessoas - cerca de 10% da população local - já migrou para regiões seguras do interior da Ucrânia ou da Rússia, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). Só em Donetsk, 40% da população teria deixado a cidade. São famílias inteiras, de idosos ou jovens como Thivoc Vitalij, de 20 anos, que partiu em direção a Sebastopol, agora território russo, na quarta-feira. "Dane-se a Ucrânia!", afirmou, antes de embarcar.

Apesar do recuo, não é possível afirmar que a vitória de Kiev nos confrontos seja mera questão de tempo. De acordo com o Conselho de Segurança Nacional e de Defesa da Ucrânia, 40 mil soldados russos, equipados com 150 tanques e 400 blindados, seguem posicionados no outro lado da fronteira. Pouco se sabe sobre o apoio que as milícias podem estar recebendo do lado russo. O que se pode afirmar é que os militantes pró-Rússia estão em inferioridade, com cerca de 20 mil combatentes, mas equipados com armas semelhantes às do inimigo - fuzis AK-47, blindados e artilharia, com exceção da aviação.

A maior parte de seus membros veste trajes militares, balaclavas e portam coletes à prova de balas e fuzis bem cuidados. Eles jamais se identificam e nunca permitem que jornalistas - em especial ocidentais - se aproximem de áreas nas quais concentram suas forças. Por isso, foi impossível à imprensa internacional afirmar se os milicianos possuem ou não baterias antiaéreas Buk, que teriam sido usadas para abater o Boeing 777 da Malaysia Airlines.

Outra força dos milicianos é sua capacidade de recrutamento. A reportagem encontrou entre os separatistas desde agentes de forças especiais, desertores de etnia russa, até mercenários russos e chechenos - que o Estado localizou em maio. Mas, além deles, há o apoio de civis voluntários, responsáveis por controle de documentos em postos de controle ou por tarefas administrativas.

"É mentira que só haja estrangeiros entre os separatistas", garante Dima Ilyavich, motorista de carga de Donetsk, que não pegou em armas. O apoio popular crescente faz com que os separatistas confiem na capacidade de resistir. Na quinta-feira, Alexander Borodai, o mais importante líder insurgente, garantiu. "Nós vamos resistir até o fim".

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