Rebeldia perde a primeira-dama

Mulher de Mitterrand era mais radical que o marido

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2011 | 03h04

Memória

A França perdeu sua "primeira-dama rebelde". Danielle Mitterrand, de 87 anos, viúva do ex-presidente socialista François Mitterrand, morreu ontem após ser internada por problemas respiratórios no Hospital Georges Pompidou, em Paris.

Ex-membro da Resistência Francesa e fundadora da organização não governamental France Liberté, Danielle entra para a história da França por suas posições independentes e mais à esquerda do que as do marido nos 14 anos de Eliseu. O sepultamento ocorrerá no sábado, no mausoléu da família.

A notícia da morte de Danielle Mitterrand provocou comoção na França. Ao longo de sua vida pública, ela construiu uma imagem política descolada da do marido, líder histórico do Partido Socialista (PS). Aos 17 anos, ainda com o nome Danielle Gouze, juntou-se à resistência contra a ocupação nazista. Em 1944, foi apresentada pela irmã, Christine, a François Morland, o nome de guerra de Mitterrand, então convertido à Resistência após uma breve passagem pelo regime de Vichy. Em fuga da Gestapo, os dois fingiram ser namorados em um trem a caminho da Borgonha. Assim teve início a relação.

Após a liberação, em outubro de 1944, os dois sacramentaram a união, que seria marcada por três filhos e pela cumplicidade quanto à relação extraconjungal do marido, que teve uma segunda mulher e uma filha.

Em 21 de maio de 1981, com a eleição de Mitterrand como o 21.º presidente da França, Danielle deu início a uma trajetória atípica. O primeiro rompimento veio com a decisão de não se mudar para o Palácio do Eliseu.

Em dois mandatos do marido, Danielle firmou posições mais agressivas do que a diplomacia francesa permitiria. Ela defendeu a guerrilha em El Salvador e os zapatistas e o subcomandante Marcos no México. Também articulou a polêmica visita de Fidel Castro a Paris. Sobre Cuba, afirmou: "A expropriação das companhias americanas não me desagradou. Aplaudo o fracasso da tentativa de desestabilização pelos cubanos anticastritas de Miami e pela CIA".

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