Rebelião contra Blair pode crescer hoje no Parlamento

Tony Blair terá hoje um dos dias mais difíceis desde que assumiu o posto de de primeiro-ministro do Reino Unido em 1997. Seguindo a decisão ontem do ex-líder trabalhista na Câmara dos Comuns, Robin Cook, o secretário da saúde, Lord Hunt of Kings Heath, e o secretário do Ministério do Interior, John Deham, ambos de segundo escalão, anunciaram a sua renúncia nesta manhã. Outras lideranças do partido trabalhista poderão abandonar cargos no governo diante da decisão de Blair de engajar o país numa guerra contra o Iraque sem o aval do Conselho de Segurança das Nações Unidas.A ministra para o Desenvolvimento Internacional, Clare Short, que havia afirmado na semana passada que renunciaria ao cargo caso o Reino Unido declarasse guerra sem uma segunda resolução da ONU, disse hoje que vai permanecer no governo, embora continue ?muito crítica? em relação à crise do Iraque. Poucos acreditam que ela ficará no posto por muito tempo.Outro termômetro importante do grau de rebelião dos trabalhistas ocorrerá durante a sessão do Parlamento que irá votar hoje uma moção sobre a participação do país na guerra. Há duas semanas, ao avaliarem a questão, 122 deputados trabalhistas votaram contra Blair. Muitos acreditam que essa rebelião aumentou nos últimos dias, o que poderá criar um constrangimento ainda maior para o primeiro-ministro. Mas certamente Blair obterá a aprovação da moção pela guerra, nem que para isso precise de apoio dos votos do partido de oposição, o partido Conservador. Para que o primeiro-ministro consiga evitar o vexame de se escorar nos votos dos conservadorees, menos de 165 deputados trabalhistas precisariam votar contra a guerra. A maior parte da opinião pública continua se opondo à guerra, embora haja sinais de um crescente apoio à participação do país no conflito. Uma pesquisa publicada hoje pelo jornal The Guardian mostra que 44% dos britânicos são contra a guerra e 38% a favor. Há um mês, 53% eram contra e 29% a favor.Saddam não deve ter as armas, diz CookA enorme repercussão da renúncia de Robin Cook ainda está causando danos ao governo. Ao se explicar perante o Parlamento, Cook desferiu um sério golpe contra um dos principais argumentos usados por Blair e George Bush para atacar Saddam Hussein, ao afirmar que o Iraque provavelmente não tem armas de destruição em massa que representem uma ameaça a outros países. Cook foi ministro das Relações Exteriores nos primeiros anos do governo Blair e teve acesso a todas informações secretas sobre as atividades bélicas iraquianas. Segundo ele,a capacidade militar do Iraque equivale hoje à metade da que existia durante a primeira guerra do Golfo, em 1991. Por isso, salientou Cook, é ilógico argumentar que o Iraque represente hoje uma ameaça e que isso justifica uma guerra. Cook disse que renunciou do cargo do governo pois não tinha condições de apoiar uma guerra que não conta com apoio doméstico e internacional.Ele alertou que as alianças internacionais de toda a natureza serão ameaçadas com o abandono da busca por uma saída diplomática para a crise iraquiana. Mas ele ressaltou que, apesar de sua renúncia, ele deseja que Blair - que segundo ele é o mais importante líder trabalhista de sua geração - deve continuar liderando seu partido e ocupando o cargo de primeiro-ministro. Após o discurso, Cook foi aplaudido de pé durante vários minutos pelos colegas do Parlamento. Diante de um país dividido, Tony Blair está fazendo a aposta mais arriscada de sua carreira política. Se a guerra contra o Iraque for curta e vitoriosa, com poucas vítimas e com provas de que Saddam Hussein escondia armas de destruição de massa, o primeiro ministro britânico poderá superar as atuais dificuldades. Mas se a guerra não ocorrer como ele prevê, o seu futuro político ficará seriamente ameaçado.

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