Receita que encerrou conflito bósnio não serve para Iraque

No conflito atual não existem condições que permitiam a divisão territorial

Thom Shanker, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2026 | 00h00

Há 12 anos, 8 mil homens muçulmanos da cidade de Srebrenica foram cercados por combatentes servo-bósnios, levados para a floresta e executados.O massacre foi um dos últimos atos de "limpeza étnica" no conflito bósnio, uma guerra de três anos de cercos, expulsões, estupros e execuções. E causou tanto choque nos Estados Unidos e seus aliados europeus que eles ameaçaram lançar bombardeios para obrigar as partes em guerra a reunir-se pacificamente numa base da Força Aérea americana em Dayton, Ohio.Elas se reuniram. Lá em Ohio, assinaram um armistício que criou vidas separadas e líderes separados para garantir uma aparência de paz entre os croatas (católicos), os sérvios (cristãos ortodoxos) e os bósnios (muçulmanos). Historicamente, a solução encontrada - a divisão - é a alternativa preferida entre os últimos recursos.Pode-se dizer, talvez sem causar surpresa, que uma espécie de nostalgia bósnia toma conta de Washington enquanto se discute o dilema do Iraque - pelo menos entre as pessoas que observam as lições daquele conflito em busca de um modo de pôr fim à violência atual.Ninguém quer várias Srebrenicas nos desertos do Iraque. Por isso, cada vez mais congressistas, diplomatas e analistas citam o modelo da Bósnia ao discutir o que fazer se os xiitas, sunitas e curdos não encontrarem o caminho até um Estado estável e compartilhado.Eles perguntam se os EUA deveriam usar sua energia militar e diplomática para empurrar as facções do Iraque na direção de uma "divisão moderada" em regiões seguras e sustentáveis, autônomas e homogêneas, a fim de evitar a guerra civil total no coração do Oriente Médio, a terra do petróleo. A Bósnia é uma analogia atraente. O armistício impera. E a força de estabilização liderada pelos EUA nunca perdeu um soldado sob fogo hostil. Há apenas um problema - ou melhor, três - em comparar o Iraque de 2007 com a Bósnia de 1995. As três condições que qualificavam a Bósnia para a paz sob os acordos de Dayton simplesmente não existem no Iraque. É por isso que não ouvimos os generais americanos em Bagdá - muitos dos quais ganharam insígnias como oficiais nos Bálcãs - falando sobre uma divisão viável. Eles dizem que nenhuma divisão seria "moderada". Uma divisão seria repressiva e mortífera. E uma enorme derrota para a política externa dos EUA.A primeira condição fundamental da antiga república iugoslava da Bósnia é que ela já estava dividida. Quando os negociadores se reuniram em Dayton, a violência já havia separado, empurrado e repelido católicos, cristãos ortodoxos e muçulmanos para enclaves bastante coesos. A guerra havia criado um mapa. A tarefa dos diplomatas era traçá-lo no papel.Tal mapa está longe de existir no Iraque. Embora 2 milhões de iraquianos tenham fugido do país e outros 2 milhões tenham se deslocado no território nacional, até 5 milhões adicionais - 20% da população anterior à guerra - teriam de ser transferidos para criar uma região etnicamente coerente."As fronteiras geográficas não permitem a divisão", afirmou Joost Hiltermann, vice-diretor de programas de Oriente Médio do Grupo de Crise Internacional, baseado na Turquia. "Não existe nenhum Sunistão ou Xiistão. Tampouco é possível criá-los, dada a total mistura dos povos no Iraque, especialmente nas grandes cidades." Hiltermann disse que o Iraque "corre o risco de sofrer um colapso total, com dirigentes locais - políticos, líderes de milícias, xeques - governando pequenas áreas separadas por fronteiras móveis e com freqüentes desavenças afetando os xiitas e os sunitas.A segunda condição não preenchida é que na Bósnia, em 1995, as três partes já haviam lutado entre si à exaustão. No Iraque de hoje, pesquisas mostram que o cidadão médio está farto de guerra, mas militantes leais às três facções sectárias permanecem dispostos a combater. Armas e militantes estrangeiros continuam a entrar no Iraque por suas fronteiras porosas. E isso sublinha a terceira condição inexistente no Iraque. Um aspecto do processo de Dayton foi que os poderes externos que armavam e inspiravam a violência bósnia - o ditador sérvio Slobodan Milosevic e o homem forte croata Franjo Tudjman - sentaram-se à mesa ao lado de seus representantes na Bósnia e dos muçulmanos bósnios. Em contraste, a administração do presidente americano, George W. Bush, não quer ou não é capaz de atrair Irã e Síria para uma verdadeira parceria diplomática que interrompa os ataques contra o governo iraquiano e as tropas da coalizão liderada pelos EUA. Parece haver poucas perspectivas de expansão do diálogo direto, especialmente com o Irã.* Tradução de Alexandre Moschella

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