Recessão altera hábitos de trabalhadores do campo

Sem dinheiro, homens não conseguem se casar

Cláudia Trevisan, O Estadao de S.Paulo

10 de maio de 2009 | 00h00

Os camponeses casados saem de suas vilas para sustentar suas famílias e, os solteiros, para aumentar as chances de conseguir uma mulher. Para estes, o maior objetivo é ganhar o suficiente para construir uma casa, de preferência com um amplo pátio interno, muro alto e uma bela entrada."Os homens saem para ganhar dinheiro e investem tudo o que ganham na construção de uma casa. Sem isso, eles não conseguirão se casar", disse Wang Ji Hong, casada há mais de dez anos. A política de controle de natalidade e a histórica preferência dos chineses por bebês do sexo masculino criaram um enorme desequilíbrio na população da China, que tem cerca de 40 milhões de homens a mais que mulheres. Grande parte desse contingente, que supera a população da Argentina, está em idade de casar e enfrenta dificuldade para encontrar uma mulher. Os irmãos Dai Qian, de 19 anos, e Dai Chong, de 20, estão entre os jovens solteiros que perderam seus empregos nas cidades em razão da crise financeira global. Qian trabalhava em uma empresa de reciclagem de ferro. Chong, em uma siderúrgica. Os dois setores estão entra os mais atingidos pela desaceleração mundial."O preço do ferro caiu muito e o negócio ficou ruim. Perdi o emprego em fevereiro, depois de trabalhar na siderúrgica por um ano", lembrou Qian, que ganhava 1 mil yuans (US$ 146) por mês. O irmão recebia o dobro na siderúrgica, mas também ficou desempregado no início do ano.Os dois trabalhavam em Handan, cidade de 1,4 milhão de habitantes localizada a 440 quilômetros de Pequim, em cuja jurisdição fica a vila rural onde nasceram, Xiyachi. Depois de ficar em casa por quase dois meses, os irmãos conseguiram um emprego na construção civil em Huang Liang Meng, um vilarejo da mesma região. "É meu primeiro trabalho do ano", disse Qian.Nenhum dos dois sabia dizer ao certo quanto ganhariam, mas esperam que seja algo em torno de 40 yuans (US$ 5,86) por dia. O trabalho foi conseguido por meio de guanxi, a rede de relações pessoais que rege a sociedade chinesa."Está difícil encontrar qualquer tipo de emprego, mesmo os que pagam mal", observou Qian. Seu irmão afirmou que gostaria de voltar a procurar trabalho na cidade, mas ressaltou que não é uma opção fácil: "Nós não conhecemos ninguém, não sabemos se vamos encontrar trabalho e, se encontrarmos, não sabemos se vamos receber o pagamento no fim."FRUSTRAÇÃOO calote dos salários é um dos dramas enfrentados pelos migrantes, que fazem trabalhos temporários sem um contrato formal e costumam ganhar o dinheiro apenas no fim de cada período. O problema diminuiu nos últimos anos, mas o governo calcula que, em 2008, 5,8% dos migrantes rurais não receberam pagamento por seu trabalho.A vida das mulheres que deixam o campo em busca de empregos urbanos costuma ser um pouco mais estável, mas igualmente dura. A maioria é contratada por fábricas e enfrenta menor risco de calote. OPORTUNIDADEChen Hui Min, de 22 anos, viveu quase cinco anos em Suzhou, cidade vizinha a Xangai, onde trabalhou em duas fábricas de produtos eletrônicos.No início do ano, a empresa em que estava reduziu salários e começou a demitir pessoas. Antes da crise, ela ganhava 1.900 yuans (US$ 278) por mês, que foram reduzidos para apenas 1.400 yuans.Cansada da linha de montagem, Hui Min decidiu voltar para casa, na vila Bai Er Zhuang, localizada no condado de Weixian, que pertence ao município de Handan.Hoje, ela trabalha em um café na cidade e ganha cerca de 500 yuans (US$ 73) por mês. Em compensação, Hui Min não tem de assumir despesas com aluguel nem gastar com alimentação.

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