Recessão é só um dos males de legado de Bush

Novo presidente dos EUA, que será eleito em novembro, herdará longa lista de problemas deixados por predecessor

Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

27 de janeiro de 2008 | 00h00

A disputa pela Casa Branca ainda está no início, mas uma coisa é certa: o próximo presidente dos EUA, que comandará a maior economia do mundo, vai herdar uma crise no sistema financeiro e uma reputação internacional arranhada. O presidente dos EUA, George W. Bush, não teve muito do que reclamar quando assumiu o governo, no início de 2001. Bill Clinton havia deixado de herança um superávit fiscal recorde: US$ 230 bilhões. O sucessor de Bush terá menos sorte: receberá, no mínimo, um déficit de US$ 219 bilhões - o buraco pode aumentar com o pacote de estímulo à economia, que inicialmente é de US$ 150 bilhões. A dívida dos EUA, no fim do governo Clinton, era de US$ 5,6 trilhões. Agora está em US$ 9,2 trilhões - o maior aumento já ocorrido na história. Segundo Tyler Cowen, professor de economia da George Mason University, há 80% de chances de o próximo presidente assumir um país em plena recessão.A última vez que isso aconteceu foi no início dos anos 80, quando Ronald Reagan foi eleito em meio à aguda desaceleração do governo de Jimmy Carter. Em 1994, Clinton herdou uma recessão leve, que já estava se corrigindo.PACOTE ECONÔMICOO próximo ocupante da Casa Branca terá a difícil missão de conduzir o país em um mundo em que o barril de petróleo está à beira dos US$ 100. Internamente, milhares de americanos estarão perdendo suas casas por causa da crise das hipotecas. Outro problema é o que fazer com os 12 milhões de imigrantes ilegais que vivem atualmente nos EUA - e os 500 mil que chegam todo ano."Não sei qual vai ser o nome que vão dar, mas certamente o próximo presidente anunciará um grande pacote para pôr a economia de volta nos trilhos logo em seu primeiro discurso", diz Murray Weidenbaum, que foi presidente do conselho de economistas da presidência no governo Reagan. "Até agora, nenhum dos candidatos examinou a economia de perto, com o cuidado que deveria." Para Robert Reich, professor de Políticas Públicas da Universidade Berkeley, os candidatos republicanos, se eleitos, não mudariam a política econômica que pôs o país no que ele chama de "caos da bolha imobiliária". "Nenhum deles criticou as políticas econômicas de Bush, que foram desastrosas para a nação", diz Reich, que foi secretário do Trabalho no governo Clinton.GUERRAS SEM FIMComo se não bastasse, o próximo presidente terá nas mãos uma superpotência envolvida em duas guerras de difícil solução: Iraque e Afeganistão. Além das milhares de vidas perdidas, os conflitos já consumiram US$ 691 bilhões desde os ataques terroristas de 2001 - apenas em 2007 foram US$ 120 bilhões. Para 2008, Bush pediu outros US$ 193 bilhões para custear a guerra, o que deve aumentar ainda mais o déficit orçamentário do país. Para se ter uma idéia do tamanho do problema, o Exército está exaurido. Para atingir as metas de recrutamento, passou a alistar soldados com ficha criminal e até sem colegial completo. Além disso, a assistência médica concedida a milhares de veteranos que voltam amputados ou traumatizados virou um caso de polícia. Caso o próximo presidente seja um democrata - já que nem todos os republicanos são a favor da retirada das tropas do Iraque -, ele terá de encontrar uma maneira de trazer de volta os soldados americanos sem deixar o Oriente Médio mergulhado no caos. E terá de reconstruir o poder militar americano para que o país possa defender-se contra novos possíveis ataques.Na lista de prioridades do próximo presidente estará também a recuperação da imagem dos EUA no exterior. É essencial descobrir como fechar Guantánamo e o que fazer com seus 300 prisioneiros. Abu Ghraib, o seqüestro de suspeitos de terrorismo pela CIA e a aceitação tácita da tortura como método de interrogatório serão manchas difíceis de limpar.Outro problema inadiável é o aquecimento global. "Eu diria que é o segundo da lista, logo depois da economia. Assim como a China, os EUA terão de se comprometer com a redução do aquecimento global, com limites obrigatórios na emissão de poluentes", disse Cowen. Depois de anos negando a existência do problema, o governo Bush finalmente aceitou o fato como científico. Mas ainda se recusa a assumir metas mandatórias de redução de gases.Lidar com a China e sua crescente importância no cenário internacional será outra tarefa espinhosa. Pequim e o impacto de seu crescimento no mundo (que, entre outras coisas, ajudou a empurrar o petróleo para US$ 100) são uma grande dor de cabeça. Isso sem falar no desequilíbrio comercial. Em 2000, o déficit comercial dos EUA era de US$ 380 bilhões. Em 2007, deve ficar em cerca de US$ 800 bilhões, grande parte dele com a China. Há muitas medidas protecionistas tramitando no Congresso que poderiam ganhar força em um ano de recessão, principalmente se o próximo presidente for um democrata.No campo da política externa bilateral, a fila de países-problema para os EUA é longa. Depois de o governo Bush ter adotado uma estratégia de isolar os inimigos, o próximo presidente provavelmente terá de se engajar em uma intensiva campanha diplomática com países como Síria, Irã e Cuba pós-Fidel.A questão palestina dificilmente estará resolvida, apesar dos esforços de última hora em Annapolis e da promessa de empenho do presidente palestino, Mahmud Abbas, e do premiê israelense, Ehud Olmert. Outras questões difíceis de serem tratadas serão as relações bilaterais com a Rússia - o próximo presidente deverá aprender a tratar com o vice-premiê Dmitri Medvedev, que deve ser o sucessor de Vladimir Putin -, com a Coréia do Norte, que ainda não desmontou seu programa nuclear, e com o Paquistão, cujo arsenal atômico pode ficar à deriva caso o presidente Pervez Musharraf perca o controle do país.

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