Recessão em ano eleitoral alimenta repressão chavista

Com recursos econômicos limitados pela crise, Chávez aposta no cerco à oposição para garantir vantagem na votação de setembro

Ruth Costas, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2010 | 00h00

Há cinco anos, quando a Venezuela era o país que mais crescia na América Latina, a queda do petróleo era apontada como o limite provável da bonança de Hugo Chávez. De fato, essa queda, em meio a crise global de 2008, foi o que precipitou os atuais problemas econômicos do país. Mas a recessão na qual a Venezuela está mergulhada hoje, enquanto o restante da região já voltou a crescer, ganhou uma dinâmica própria.

Um cenário pouco animador para um governo que se aproxima de eleições acirradas - as legislativas de setembro. E o que Chávez pretende fazer sobre isso? Ao que tudo indica, já está fazendo. "O aumento do cerco à oposição por parte do governo é resultado desse cenário em que as fichas econômicas de Chávez estão acabando: ele aposta na repressão política e no aumento do controle institucional para garantir que concorrerá numa posição vantajosa em setembro", explica Maikel Bello, da consultoria Ecoanalítica.

O barril de petróleo venezuelano fechou o último semestre em US$ 70. Na última década, só em 2008 a média da cotação foi maior. Ainda assim, o PIB caiu 5,8% no primeiro trimestre deste ano e a expectativa é que o país acabe 2010 em recessão, quando os vizinhos devem crescer 4%.

Em 2009, a economia venezuelana contraiu-se 3,3% e a inflação não deu trégua. Foi de 25,1% no ano passado e em 2010 deve passar dos 30%. Resultado: menos empregos, salários mais baixos e preços mais altos. "Num cenário como esse era de se esperar mais repressão. Chávez sabe que bolsos vazios têm um potencial de mobilização maior do que os discursos da oposição", diz o economista José Rafael Zanoni, da Universidade Central da Venezuela.

Em algumas ocasiões, as questões econômicas são usadas para acuar opositores. O dono da emissora de TV Globovisión, Guillermo Zuloaga, por exemplo, teve de fugir do país em junho, depois que um tribunal decretou sua prisão por especulação na venda de veículos (ele também é dono de uma concessionária).

Em outubro de 2008, quando a crise global explodiu, o ex-ministro da Defesa general Raúl Baduel, agora crítico de Chávez, foi preso acusado de corrupção. No ano seguinte, enquanto o país entrava em recessão, o líder da oposição e ex-candidato presidencial Manuel Rosales teve de se exilar no Peru juntamente com o ex-governador do Estado de Arágua Didalco Bolívar. E a lista de opositores exilados cresce conforme os que criticam Chávez são presos ou processados na Venezuela.

Na quarta-feira, Alejandro Peña Esclusa, ex-candidato presidencial, foi detido por laços com um suposto terrorista. Chávez continua ameaçando multar ou expropriar meios de comunicação críticos a seu governo e, recentemente, ativou as "guerrilhas comunicacionais", grupos de jovens que vão "combater" na internet e nas ruas as mensagens da "mídia capitalista".

"Com a disputa com a oposição e a discussão sobre democracia, o presidente tenta desviar as atenções dos problemas que realmente importam para a população: inflação, desemprego e escassez de produtos", diz Zanoni.

Falta de investimentos. Há três fatores por trás da recessão venezuelana. Talvez o mais significativo seja a queda dos investimentos privados, inibidos pelo modelo de desenvolvimento estatista e centralizador adotado por Chávez. "Os problemas se ampliaram em 2007, com o anúncio do socialismo do século 21", diz o economista José Guerra.

Até então, apesar da instabilidade do país, a certeza de que os recursos do petróleo inundariam a economia - e garantiriam lucros altos - compensavam o risco dos investidores. A partir de 2007, Chávez começou a expropriar e ameaçar multinacionais estrangeiras. Logo, os ataques se voltaram para grandes e médias empresas venezuelanas. Hoje, ele já ameaça tomar até pequenos empórios que não cumprirem o tabelamento de preços.

Com a produção nacional em queda, o país tornou-se cada vez mais dependente das importações. Em uma década, as compras externas saltaram de US$12 bilhões para US$36 bilhões. "Chávez superestimou a capacidade de o Estado substituir o setor privado e agora temos escassez e alta de preços", diz Zanoni.

O segundo fator por trás da recessão venezuelana está relacionado ao sucateamento da infraestrutura do país. Combinada com fatores climáticos - a maior seca em décadas - a falta de investimentos na produção de energia levou, entre o fim de 2009 e o início de 2010, a apagões e racionamentos de eletricidade de até quatro horas diárias. Os shoppings tiveram de reduzir seus horários de funcionamentos e a jornada do funcionalismo público foi cortada.

De acordo com analistas, o sucateamento atingiu até o setor petrolífero. A estatal PDVSA assumiu novas atribuições como a distribuição de alimentos (com a PDVAL) e a construção de casas populares (PDVSA Engenharia e Construções). Justamente os investimentos para a manutenção e ampliação da produção de petróleo ficaram em segundo plano. "A produção caiu um pouco e Chávez disse que foi pela decisão da Opep de reduzi-la. Agora, as metas do cartel já foram atingidas e ela continua caindo", diz Bello.

Por fim, o terceiro motor da crise venezuelana é a política cambial desastrosa. Desde 2003, o governo controla a compra e venda de divisas. Quem quer viajar para o exterior, por exemplo, tem um limite de gastos - US$2.500 se o destino for o Brasil. A burocracia para receber divisas é tanta que um site humorístico publicou que os turistas precisariam trazer sabonetes de hotéis para provar que saíram do país. "É rir para não chorar", comentou um internauta.

A recusa em desvalorizar o bolívar forte de 2005 até 2009, quando a inflação ficou entre 25% e 30% ao ano, fez com que se tornasse ainda mais vantajoso importar do que produzir na Venezuela. Isso minou a competitividade dos exportadores.

A resposta de Chávez às dificuldades foi mais controle: o governo centralizou o mercado de títulos denominados em dólares (na prática, um mercado de divisas paralelo legal) e está apertando o cerco contra o mercado negro. Uma desvalorização no início do ano - que criou um cambio dual - deu algum alívio para o governo e a PDVSA ao aumentar, em bolívares, o valor dos recursos conseguidos com as exportações petrolíferas. Mas os gastos também aumentaram muito nos últimos anos.

O irônico é que agora os preços do petróleo vão relativamente bem. Chávez e o socialismo bolivariano estão complicando a situação da economia venezuelana sozinhos.

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