Recolher armas para conter crimes

Cidade americana de Newark iniciou campanha de coleta, realizada em igrejas, na esperança de reduzir a violência

É COLUNISTA, ESCRITOR, JOE, NOCERA, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, ESCRITOR, JOE, NOCERA, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2013 | 02h01

A primeira arma levada para a Calvary Gospel Church, no violento bairro de South Ward, em Newark, foi uma velha espingarda. Não era serrada, nem semiautomática. Era uma arma de caça. O seu proprietário recebeu US$ 150.

Era sexta-feira de manhã, o primeiro dos dois dias durante os quais as pessoas poderiam trocar suas armas por dinheiro em postos especiais do Condado de Essex, em Montclair, Newark e outros. Algumas semanas atrás, quando foi realizada outra dessas campanhas no Condado de Mercer, foram entregues 2.604 armas, 700 das quais haviam sido compradas ilegalmente ou modificadas ilegalmente, e até um lançador de foguetes.

As coisas iam muito devagar em Calvary Gospel. Enquanto em outros lugares, como Montclair, havia intensa atividade, os 12 policiais de Newark, no ginásio da igreja, praticamente matavam o tempo. De vez em quando, um deles gritava "chegando" e alguém aparecia com uma arma. A maioria das pessoas que chegava com armas parecia meio sem graça.

"É uma coisa embaraçosa", disse o sujeito que levou três armas, uma delas de assalto. Posteriormente, um veterano policial da cidade contou-me que sua equipe conseguiu ligar algumas dessas armas a determinado crime ou a um vendedor no South, o bairro onde são encontradas muitas das armas ilegais de New Jersey. Mas, como a entrega das armas tem a garantia de anistia, eles não puderam fazer nada. Tentei falar com algumas dessas pessoas na saída da igreja, mas a maioria delas não respondeu ou parou.

Lá pelas 10 horas, já haviam sido entregues cerca de 20 armas, entre elas 6 de pistolas semiautomáticas. Naquele momento, chegaram Jeffrey Chiesa, procurador-geral do Estado de New Jersey, e Carolyn Murray, promotora interina do Condado de Essex.

Eles levavam o dinheiro que estava sendo usado para pagar as armas, e tinha sido confiscado de narcotraficantes e de outros criminosos. (Os preços variavam de US$ 25 por uma espingarda de ar comprimido a US$ 250 por uma arma ilegal.)

Chiesa agradeceu ao pastor, o reverendo Steven Davis. "É importante que as pessoas tragam suas armas para lugares de respeito", disse.

Críticas. Muitos criticam a campanha. O argumento principal é o de que as armas entregues nunca seriam usadas para cometer um crime - como a espingarda de caça. Segundo eles, os criminosos dificilmente se sentirão tentados a entregar suas armas apenas porque alguém acena para eles com algumas centenas de dólares.

Mas Chiesa não liga para os argumentos. "O governador (Chris Christie) disse para usarmos todos os meios necessários para reduzir a violência provocada por armas de fogo, tradicionais ou não. Conseguimos muitas armas durante a campanha, muitas delas adquiridas de modo ilegal. Em termos concretos, nós sabemos que isso faz uma diferença", disse Chiesa. Mais tarde, por telefone, o prefeito Cory Booker, de Newark, disse-me que, antes de assumir a prefeitura, via a entrega de armas com ceticismo, mas agora está mais confiante. "Eu vi o tipo de armas que eles trazem e sei que estamos prevenindo alguma violência por arma de fogo", acrescentou.

Em outro posto em Newark, Paradise Baptist Church, Chiesa deu uma breve entrevista coletiva. "O que vão fazer com as armas?", perguntou um repórter. "Vamos destruí-las", respondeu o procurador-geral.

Na realidade, o que acontecerá é um pouco mais interessante. Antes do meio-dia, acompanhada pelo sargento Luke Laterza, especialista em balística, apareceu uma senhora e recebeu as armas compradas dos cidadãos.

Jessica Mindich, de 42 anos, mãe de dois filhos, da classe alta de Connecticut, é dona da empresa Joias para a Causa, que faz joias para algumas instituições filantrópicas. Em dezembro de 2011, ela ouviu o prefeito falar de modo tão comovente da devastação causada pela violência urbana que teve a ideia de fazer braceletes com o metal retirado das armas.

Embora ela não tenha nenhuma ligação com Newark, logo convenceu Booker e a polícia a apoiar sua iniciativa. Inicialmente, a polícia lhe ofereceu o metal de algumas armas confiscadas em casos já esquecidos.

Ela o fundiu e produziu elegantes braceletes com o número de série da arma. Desde que começou a vendê-los, há mais de três meses, já arrecadou dinheiro suficiente para doar US$ 40 mil a Newark - que ajudarão a financiar a próxima campanha de entrega de armas. Ela a batizou Caliber Collection.

Por volta das 19h30, o gabinete do procurador-geral informou que somente na sexta-feira seriam adquiridas mil armas. Montclair comprara tantas armas que a polícia de Newark decidiu enviar para lá alguns guardas para dar um reforço no sábado.

Ao desejar sucesso com a operação a um dos guardas, ele respondeu: "Se tirarmos uma arma da rua, será um sucesso". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.