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Issa Goraieb
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Recorde de acolhida

É com certa amargura, carregada de inveja, que os libaneses observam como a União Europeia decidiu gerir o problema do fluxo incessante de migrantes que fogem do seu país e rumam para o Velho Continente. Amargura e inveja podem ser facilmente explicadas. Assim como os países europeus, e por motivos tanto materiais quanto humanitários e morais, o Líbano se revelou incapaz de conter esta lamentável maré, ou, ao menos, de controlar seu volume.

Issa Goraieb, O Estado de S. Paulo

13 Setembro 2015 | 02h30

Ao contrário dos países da Europa que dividiram entre si racionalmente, por cotas, a integração dos que pedem asilo, o Líbano enfrenta a lendária desunião do mundo árabe. Nenhum dos países produtores de petróleo do Golfo, apesar dos seus imensos recursos financeiros, se dispôs a acolher um único refugiado.

Desde então, além da Turquia (não árabe), coube aos dois países árabes mais pobres, Líbano e Jordânia, a maior parte do fardo. Particularmente dramático é o caso do Líbano, pequeno país com menos de 5 milhões de habitantes que já hospeda cerca de 500 mil refugiados palestinos. No espaço de algumas semanas, vieram somar-se a estes mais de 1 milhão de pessoas, essencialmente sírios, o que torna este país o infeliz detentor do recorde mundial de acolhida per capita.

O infortúnio do Líbano não para ali. Apesar dos apelos desesperados de Beirute, a ajuda internacional revelou-se extremamente insuficiente. Por falta de créditos, há poucos meses organismos ONU decretaram uma redução substancial dos alimentos distribuídos aos infelizes que vivem em acampamentos. Somado à fome e ao frio do inverno que se aproxima, o analfabetismo promete tornar, a longo prazo, estes campos criadouros de delinquentes e criminosos, ou, pior ainda, de terroristas: uma bomba-relógio que ameaça não apenas o Líbano, mas também o restante do mundo.

Somente o presidente francês parece ter se dado conta do perigo. François Hollande anunciou sua intenção de interceder em favor do Líbano na conferência internacional de apoio ao país, no final de setembro, à margem da Assembleia-Geral da ONU. Antes disso, Hollande virá ao Líbano para visitar um campo de refugiados. Esta solicitude se coaduna com a longa tradição de amizade que liga a França ao nosso país, mas não é totalmente desinteressada. Para o líder francês, é importante ajudar os refugiados a permanecer aqui, para que possam regressar assim que as circunstâncias o permitirem...

É exatamente este caráter provisório que preocupa os libaneses: não há solução do conflito sírio no horizonte. Muito ao contrário, como o demonstra a decisão da Rússia de aumentar suas remessas de armas ao regime de Bashar Assad.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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