Leonid Shcheglov/Belta/AFP
Leonid Shcheglov/Belta/AFP

Recuo das guerras está em risco na Ucrânia

Maior realização política da humanidade foi a redução dos conflitos, que agora está ameaçada

Yuval Noah Harari, The Economist, The Economist

15 de fevereiro de 2022 | 05h00

No coração da crise ucraniana há uma questão fundamental a respeito da natureza da história e da natureza da humanidade: a mudança é possível? Os humanos são capazes de mudar sua maneira de se comportar ou a história se repete infinitamente, com os humanos condenados eternamente a encenar tragédias sem mudar nada, exceto a decoração?

Uma escola de pensamento nega firmemente a possibilidade da mudança. Argumenta que o mundo é uma selva, que o mais forte é predador do mais fraco e a única coisa que evita que um país subjugue outro é a força militar. Isso sempre foi e sempre será assim. Aqueles que não acreditam na lei da selva não estão apenas iludindo a si mesmos, mas pondo em risco a própria existência. Não sobreviverão por muito tempo.

Outra escola de pensamento argumenta que a dita lei da selva não é de nenhuma maneira uma lei natural. Humanos a fizeram e humanos podem mudá-la. Ao contrário de populares mal-entendidos, a primeira evidência de guerra organizada aparece no registro arqueológico apenas 13 mil anos atrás. 

Mesmo após essa data, houve muitos períodos vazios de qualquer evidência arqueológica de guerra. Ao contrário da gravidade, a guerra não é uma força fundamental da natureza. Sua intensidade e existência dependem de fatores tecnológicos, econômicos e culturais subjacentes. Conforme esses fatores mudam, a guerra também muda.

Evidências dessas mudanças estão ao nosso redor. Ao longo das recentes gerações passadas, armas nucleares transformaram a guerra entre superpotências em um ato amalucado de suicídio coletivo, forçando os países mais poderosos da Terra a encontrar maneiras menos violentas de resolver conflitos. Ao passo que guerras entre grandes potências, como a 2.ª Guerra Púnica ou a 2.ª Guerra Mundial, tenham sido uma característica saliente em grande parte da história, nas sete décadas passadas não houve nenhuma guerra direta entre superpotências.

Conhecimento

Durante o mesmo período, a economia global transformou-se de uma economia com base em materiais para uma economia com base em conhecimento. Se no passado as principais fontes de riqueza foram bens materiais, como minas de ouro, campos de trigo e poços de petróleo, hoje a principal fonte de riqueza é o conhecimento. E ainda que seja possível tomar campos de petróleo pela força, não é possível adquirir conhecimento dessa maneira. Como resultado, a lucratividade da conquista declinou.

Finalmente, um abalo tectônico ocorreu na cultura global. Muitas elites na história – caciques hunos, senhores vikings e patrícios romanos, por exemplo – consideraram a guerra positivamente. Governantes, de Sargão, o Grande, a Benito Mussolini, buscaram imortalizar-se pelas conquistas (e artistas como Homero e Shakespeare alegremente satisfaziam tal vaidade). Outras elites, como a Igreja Cristã, consideravam a guerra algo ruim, mas inevitável.

Mas nas recentes gerações passadas, pela primeira vez na história, o mundo foi dominado por elites que consideram a guerra tanto ruim quanto evitável. Mesmo tipos como George W. Bush e Donald Trump, sem mencionar as Angelas Merkels e Jacindas Arderns do mundo, são políticos muito distintos em relação a Átila, o Huno, ou Alarico, o Godo. Eles normalmente chegam ao poder com sonhos de reformas domésticas, em vez de conquistas estrangeiras. 

Enquanto no reino da arte e do pensamento, os faróis mais brilhantes – de Pablo Picasso a Stanley Kubrick – são mais conhecidos por representar os combates como horrores insensatos, em vez de glorificar seus arquitetos.

Como resultado de todas essas mudanças, a maioria dos governos parou de considerar guerras de agressão como uma ferramenta aceitável para fazer avançar seus interesses, e a maioria dos países parou de fantasiar a respeito de conquistar e anexar seus vizinhos. Simplesmente não é verdade que a força militar, por si só, impede o Brasil de conquistar o Uruguai ou impede a Espanha de invadir o Marrocos.

O declínio da guerra é evidente em numerosas estatísticas. Desde 1945, tem sido relativamente raro que fronteiras internacionais sejam redesenhadas por invasores estrangeiros, e nenhum país internacionalmente reconhecido foi completamente apagado do mapa por uma conquista externa. Não faltaram outros tipos de conflitos, como guerras civis e insurgências. Mas, mesmo levando em conta todos os tipos de conflito, nas primeiras duas décadas do século 21, a violência humana matou menos gente do que suicídios, acidentes de carro ou doenças relacionadas à obesidade. A pólvora tornou-se menos mortífera do que o açúcar.

Parâmetros da paz

Estudiosos debatem a respeito das estatísticas exatas, mas é importante olhar além da matemática. O declínio da guerra foi um fenômeno tanto psicológico quanto estatístico. Sua característica mais importante foi uma grande mudança no próprio significado do termo “paz”. Ao longo da maior parte da história, a paz significou somente “a ausência temporária da guerra”. 

Quando as pessoas afirmavam, em 1913, que havia paz entre França e Alemanha, elas queriam dizer que os Exércitos francês e alemão não estavam em combate direto, mas todos sabiam que, mesmo assim, uma guerra entre eles deveria irromper a qualquer momento.

Em décadas recentes, “paz” passou a significar “a implausibilidade da guerra”. Para muitos países, ser invadido e conquistado por vizinhos tornou- se quase inconcebível. Eu vivo no Oriente Médio, então sei perfeitamente que há exceções a essas tendências. Mas reconhecer tendências é no mínimo tão importante quanto ser capaz de apontar exceções.

A “nova paz” não é uma casualidade estatística nem uma fantasia hippie. Ela é refletida mais claramente por orçamentos friamente calculados. Em décadas recentes, governos de todo o mundo sentiram-se seguros o suficiente para gastar uma média de apenas cerca de 6,5% de seus orçamentos em forças armadas, enquanto gastaram muito mais em educação, assistência médica e bem-estar social.

Tendemos a achar isso natural, mas isso é uma novidade estarrecedora na história humana. Por milhares de anos, os gastos militares foram de longe o maior item do orçamento de qualquer príncipe, khan, sultão e imperador. Eles dificilmente gastavam algum centavo em educação ou ajuda médica para as massas.

O declínio da guerra não resultou de um milagre divino ou de uma mudança nas leis da natureza. Resultou de humanos fazendo escolhas melhores. Isso é possivelmente a maior realização da civilização moderna. Infelizmente, o fato de isso decorrer da escolha humana também significa que é reversível.

Tecnologia, economia e cultura continuam a mudar. A ascensão das armas cibernéticas, de economias impulsionadas pela inteligência artificial e de novas culturas militaristas poderia resultar em uma nova era de guerras, pior do que qualquer outra que tenhamos visto antes. Para desfrutar da paz, precisamos que quase todos façam boas escolhas. Em contraste, uma escolha ruim de apenas um lado pode levar à guerra.

É por isso que a ameaça russa de invadir a Ucrânia deveria preocupar todas as pessoas da Terra. Se tornar-se novamente uma regra que países poderosos subjugam vizinhos mais fracos, isso afetaria o comportamento e os sentimentos de todos no mundo. O primeiro e mais óbvio resultado de um retorno à lei da selva seria um acentuado aumento no gasto militar, em detrimento de gastos em todas as outras áreas. O dinheiro que deveria ir para professores, enfermeiros e assistentes sociais iria, em vez disso, para tanques, mísseis e armas cibernéticas.

Lei da selva

Um retorno à selva também minaria a cooperação global a respeito de problemas como evitar mudanças climáticas catastróficas ou regular tecnologias disruptivas, como inteligência artificial e engenharia genética. Não é fácil trabalhar com países que estão se preparando para eliminar você. E, com a aceleração tanto das mudanças climáticas quanto da corrida armamentista de IA, a ameaça de conflitos armados somente aumentará ainda mais, encerrando um círculo vicioso que poderá muito bem condenar nossa espécie.

Se você acreditar que mudanças históricas são algo impossível e a humanidade jamais deixou a selva nem nunca deixará, a única escolha que lhe resta é atuar como predador ou presa. Diante dessa escolha, a maioria dos líderes preferiria entrar para história como predador alfa e escrever seu nome na sinistra lista dos conquistadores – que desafortunados estudantes são condenados a memorizar para seus exames de história.

Mas e se mudar for possível? E se a lei da selva for uma escolha, em vez de uma inevitabilidade? Se for assim, qualquer líder que escolher conquistar um vizinho ocupará um lugar especial na memória da humanidade bem pior do que o posto de Tamerlão da vez. Ele entrará para a história como o homem que arruinou nossa maior realização. Justo quando pensamos estar fora da selva, ele nos puxou de volta.

Mudança

Não sei o que acontecerá na Ucrânia. Mas, como historiador, acredito na possibilidade da mudança. Não acho isso ingenuidade – isso é realismo. A única constante na história humana é a mudança. E isso é algo que talvez possamos aprender dos ucranianos. Por muitas gerações, os ucranianos não testemunharam nada além de tirania e violência. Eles suportaram dois séculos de autocracia czarista (que finalmente colapsou em meio ao cataclisma da 1.ª Guerra). 

Uma breve tentativa de independência foi rapidamente esmagada pelo Exército Vermelho, que restabeleceu o controle russo. O ucranianos sobreviveram, então, à grande fome engendrada no Holodomor, ao terror stalinista, à ocupação nazista e a décadas da desalentadora ditadura comunista. Quando a União Soviética colapsou, a história parecia garantir que os ucranianos percorreriam novamente o caminho da tirania brutal – afinal, o que mais eles conheciam?

Mas eles escolheram outra coisa. Apesar da história, apesar da pobreza opressiva e apesar dos obstáculos aparentemente insuperáveis, os ucranianos estabeleceram uma democracia. Na Ucrânia, diferentemente da Rússia e de Belarus, candidatos de oposição substituíram governantes repetidamente. 

Quando desafiados pela ameaça da autocracia, em 2004 e 2013, os ucranianos se levantaram duas vezes em revoltas para defender sua liberdade. Sua democracia é uma coisa nova. Assim como a “nova paz”. Ambas são frágeis e podem não durar muito. Mas ambas são possíveis e capazes de criar raízes profundas. Toda coisa antiga um dia foi nova. Tudo se resume às escolhas humanas. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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