AFP PHOTO / Paul ELLIS
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Recuo do Estado Islâmico na Síria eleva risco de atentados

Segundo especialistas, extremistas reagem a perda de terreno; terroristas atacam países em que nasceram

Andrei Netto, correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2017 | 18h08

PARIS - A sequência de atentados como os realizados em Paris, Bruxelas, Berlim, Londres e Manchester, todos perpetrados em nome do grupo terrorista Estado Islâmico (EI), está longe do fim. Especialistas advertem para a expansão geográfica dos ataques no momento em que a organização jihadista que controla áreas da Síria e do Iraque está em declínio.

A aceleração do número de atentados na Europa seria um dos efeitos da perda progressiva de relevância do EI no Oriente Médio. Com as ofensivas do Exército iraquiano, de milícias curdas, do Exército sírio e dos bombardeios russos e ocidentais, o grupo terrorista vem perdendo território e está na iminência de perder também seu mais importante bastião: a cidade iraquiana de Mossul.

A perda de relevância também afetou a capacidade de propaganda do EI, que já não consegue mais produzir vídeos sofisticados que fizeram um macabro sucesso na internet. O efeito dessa decadência é a perda de capacidade de recrutamento.

As autoridades policiais e os serviços secretos de França e Reino Unido estão em alerta máximo e isso ocorre porque o número de jihadistas que retornou a seus países na União Europeia é grande. As dúvidas que pairam sobre o percurso de Salman Ramadan Abedi, britânico de origem líbia de 22 anos, autor do atentado contra a Manchester Arena na segunda-feira 22, são um exemplo da falta de controle.

E, desta vez, lembram os analistas, não se pode nem atribuir a culpa à falta de fronteiras nacionais ou à livre circulação de pessoas, como partidos de extrema direita costumam fazer na França ou na Alemanha. O Reino Unido não apenas não faz parte do Espaço Schengen, como é uma ilha que não sofreu grande pressão no fluxo migratório. Ou seja, a maior ameaça continuaria sendo doméstica.

“O erro que cometemos, no caso da Síria, é que vamos ao terreno para enfrentar o terrorismo quando na realidade ele está no interior de nossas sociedades. O mais importante seria nos ocuparmos de nossas classes desfavorecidas, que são um alvo fácil de recrutamento”, avaliou Bernard Thellier, da Universidade Panthéon-Assas.

Ele conta ainda que a importância da ameaça é conhecida das polícias e serviços secretos europeus desde o início dos anos 2000. “As unidades de intervenção se preparam desde 2000. Mas levamos essa questão aos políticos, e não fomos ouvidos”, diz o especialista, que adverte: “Há uma ideologia que foi lançada e, enquanto essa ideologia sobreviver, o terrorismo vai sobreviver longo tempo.”

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