Recuos dão mostra da capacidade chavista de reinventar-se

Chávez já voltou atrás outras vezes, quando as conseqüências de suas medidas lhe pareceram terríveis demais

Simon Romero, The New York Times, Caracas, O Estadao de S.Paulo

11 de junho de 2008 | 00h00

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, começou o mês como o mais destacado partidário do maior grupo rebelde da Colômbia e ferrenho defensor de uma reforma dos serviços de espionagem do seu país. Mas, no espaço de poucas horas, durante o fim de semana, ele confundiu seus críticos ao mudar de rumo em ambas as controvertidas políticas .Ao fazê-lo, Chávez demonstrou uma disposição para reinventar-se que o serviu bem em tempos de crise durante a sua carreira política. Por vezes, ele apostou em forçar posições com medidas atrevidas - e, depois, mudou para um curso mais moderado quando as conseqüências pareceram terríveis demais.E, apesar de Chávez ter sido acusado de falar como autocrata e tentar governar sozinho, seus atos recentes confirmam que a democracia venezuelana, embora às vezes pareça frágil, ainda serve como freio aos desejos do presidente.CHOQUEPoucos temas ilustraram a determinação das vozes discordantes na Venezuela como o debate sobre a lei de inteligência de Chávez, que teria abolido a polícia secreta e a inteligência militar e as substituído por novas agências de espionagem e contra-espionagem. Redigida em segredo e sancionada por decreto presidencial, a amplitude da lei chocou a oposição.A lei obrigaria juízes a colaborar com os serviços de inteligência e exigia dos cidadãos cooperação com os grupos de monitoramento comunitário, o que causou o medo generalizado de que o governo quisesse seguir os passos de Cuba na criação de uma rede de informantes que abrangesse toda a sociedade.Henry Rangel Silva, o chefe da polícia secreta, apareceu na rede estatal de televisão para defender a lei, mas acabou tornando o problema ainda pior ao reconhecer que os seus espiões já estavam monitorando as atividades de candidatos às eleições do fim do ano - uma revelação que pareceu sublinhar a preocupação de que a reforma da inteligência teria por objetivo esmagar obstáculos ao poder de Chávez.A reação à lei foi forte - de grupos de direitos humanos, imprensa, líderes católicos e, é claro, de cartunistas, que imediatamente deram à lei um apelido que pegou: "lei getsapo", uma brincadeira com as palavras Gestapo e sapo, que na gíria venezuelana quer dizer "dedo-duro".CONTENÇÃO DE DANOSCom as eleições regionais marcadas para novembro, é possível que Chávez tenha tentado limitar o dano potencial que os candidatos de seu partido poderiam sofrer. Mas ele também pode ter reconhecido um bom momento para recuar numa lei que, nas suas palavras, continha trechos "indefensáveis". Ontem, o presidente confirmou a anulação da medida e encarregou a Assembléia Nacional de redigir outra lei. "Chávez tem um impressionante instinto político", disse Fernando Coronil, historiador venezuelano da Universidade de Michigan. "Ele já mostrou que sente, com raras exceções, a pulsação do país e lê as transformações na disposição política nacional melhor do que ninguém."Algumas vezes, no entanto, Chávez pareceu surdo diante dessas disposições. Em dezembro, os eleitores rejeitaram, por uma pequena margem de votos, a ampla reforma constitucional que teria expandido muito seu poder. Mas Chávez já provou ser astuto o bastante para saber quando suas medidas não têm respaldo suficiente, como quando desistiu de impor um currículo escolar de inspiração socialista ou um aumento nas passagens de ônibus.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.