Recuperação econômica nos EUA leva remessas a nível pré-crise

Estudo indica que mudanças no perfil dos imigrantes que enviam dinheiro para casa contribuíram para crescimento do fluxo.

Pablo Uchoa, BBC

07 Maio 2012 | 19h09

A retomada, ainda que modesta, da economia americana no ano passado levou a uma recuperação das remessas de dinheiro de imigrantes latino-americanos para seus países de origem, indicou um estudo do instituto Inter-American Dialogue divulgado nesta segunda-feira.

A entidade estima que o fluxo de remessas cresceu 8,5% no ano passado em relação a 2010, alcançando US$ 69,3 bilhões (R$ 133,3 bilhões) e superando por pouco o montante recorde em 2008 (US$ 69,2 bilhões).

Parte disso, na avaliação do especialista que elaborou o estudo, Manuel Orozco, se deve a mudanças estruturais no campo das remessas, como a facilidade de realizar operações financeiras com a internet, a redução do custo dos envios e o aumento do número de mulheres mandando dinheiro para casa.

No ano passado, nove países receberam 67,3% do montante enviado via remessas (a taxa era de 70% em 2008), sendo que um de cada três dólares que entrou na América Latina teve como destino o México.

Particularmente no caso do México, as remessas superaram o investimento estrangeiro direto (IED) no ano passado, lembrou Manuel Orozco.

Foram US$ 22,7 bilhões em remessas em 2011, nos cálculos do Inter-American Dialogue, contra US$ 19,4 bilhões em IED, segundo estimativas da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL).

"Em sua maioria, os países com laços mais próximos da economia americana experimentaram maior crescimento do que aqueles cujas populações também migram para a Europa", afirmou Orozco.

O pesquisador também afirmou que o estudo "revela que estes fluxos continuam sendo muitos importantes para algumas economias".

Em países como Guatemala, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Haiti, Jamaica e Guiana, as remessas respondem por mais de 10% do Produto Interno Bruto (PIB).

Mudanças

Entretanto, Orozco acredita que o crescimento das remessas não tenha ocorrido apenas pela recuperação econômica americana. Os EUA praticamente estagnaram no início de 2011, e só no segundo semestre retomaram a dinâmica, crescendo 3% no último trimestre.

Entretanto, a frágil melhora não parece ter atraído mais imigrantes: ao contrário, com cerca de 400 mil deportados só no ano passado - um recorde -, os EUA hoje registram saída líquida de imigrantes, em particular do México.

O desemprego entre estrangeiros diminuiu em 2 pontos percentuais, mas o estudo ressalva que isto pode ser explicado pelas deportações que reduziram a força de trabalho. "Um aumento de 8% nas remessas não pode ser explicado por um declínio de 2 pontos no desemprego", avalia Orozco.

Para o especialista, a mudança nas remessas ocorreu por outras razões, mais estruturais, como o fato de ser mais barato e fácil enviar dinheiro hoje do que há dez anos, e muitas mulheres estarem contribuindo com o fenômeno.

Estimativas feitas pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento indicam que o custo de enviar dinheiro caiu de até 20% em 2000 para uma média de 5,5% dez anos depois.

Naquele ano, disse Orozco em outro estudo, o uso da internet e do sistema bancário para transferir dinheiro elevaram as quantias enviadas pelos imigrantes para seus países de origem.

"O maior uso da tecnologia e o acesso às ferramentas financeiras entre imigrantes (tanto em seus países de acolhimento quanto em seus países de origem) pode ter afetado positivamente o crescimento nas quantias de remessas", escreve o especialista no relatório atual.

"Estudos mostram que os imigrantes que usam instrumentos financeiros, como transferências online através de contas online, enviam ligeiramente maiores quantias que os que usam dinheiro vivo."

Quanto à participação de mulheres nas remessas, diz, pela primeira vez, as imigrantes mulheres são tão numerosas quanto os imigrantes homens, e suas qualificações são, inclusive, um pouco melhores do que as dos homens. Como resultado, elas enviam, em média, 10% mais recursos do que eles, apontou o estudo.

Fluxo intrarregional

Outro fenômeno cada vez mais importante no cenário das remessas é o fluxo intrarregional - ou seja, de latino-americanos residentes em outros países da região mandando dinheiro para casa.

Orozco disse à BBC Brasil que tal fluxo já responde por 7% do montante total.

Segundo dados coletados pelo pesquisador, o maior fluxo de remessas provém dos 1,55 milhão de imigrantes latino-americanos na Argentina: US$ 781 milhões em 2011.

Cerca de 1 milhão de latino-americanos na Venezuela enviaram US$ 543 milhões a seus países de origem no mesmo período, principalmente para a Colômbia.

Do México, 776 mil imigrantes enviaram US$ 391 milhões e do Brasil, 736 mil destinaram US$ 371 milhões.

Do Chile, outro grande destino para a imigrantes latino-americanos no continente, cerca de 343 mil imigrantes enviaram US$ 173 milhões no ano passado, segundo dados do estudo. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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