Recuperação questionada

Cidadãos de New Orleans, principalmente os negros, acham que ainda há muito a fazer com os danos do furacão katrina

CAMPBELL ROBERTSON, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2015 | 02h01

No 10.º aniversário do furacão Katrina e da catástrofe provocada pelo rompimento dos diques em New Orleans, uma nova pesquisa mostra uma profunda divisão em termos raciais a respeito da recuperação da cidade na visão de seus habitantes.

Cerca de quatro em cada cinco habitantes brancos acreditam que a maior parte a cidade se recuperou, enquanto três em cada cinco negros afirmam ela não se recuperou, discrepância respaldada por uma série de questões, até mesmo a economia local, a situação das escolas e a qualidade de vida.

A pesquisa, realizada pelo Public Policy Research Lab da Universidade do Estado da Louisiana, foi divulgada na segunda-feira. O furacão e a ineficácia dos diques de New Orleans, em 26 de agosto de 2005, provocaram a morte de mais de 1.800 pessoas em toda a costa e danificaram ou destruíram mais de um milhão de casas e empresas.

Eventos grandes e pequenos estão ocorrendo durante toda a semana na região. Discussões de grupos e projetos de voluntariado, visitas presidenciais e, não seria New Orleans se também não houvesse as famosas paradas. O presidente Barack Obama visitou a cidade na quinta-feira, enquanto vários secretários de gabinete percorreram a costa para mostrar uma recuperação graças aos bilhões de dólares fornecidos pela assistência federal.

O ex-presidente George W. Bush, que lamentou alguns aspectos do tratamento dado por seu governo ao desastre, visitou New Orleans ontem, enquanto o ex-presidente Bill Clinton participará do principal evento na capital do Estado - um ato cívico com música, orações e um memorial de líderes cívicos e da comunidade.

Realizações. Obama e vários representantes locais enalteceram as realizações ocorridas desde a tempestade, a extraordinária força dos habitantes da costa do golfo e os esforços para reconstruir o que foi destruído em algo melhor.

No entanto, o otimismo não é compartilhado por muitos dos que vivem aqui, particularmente a população negra. A pesquisa da LSU repete o que foi constatado em outros estudos - como um recente trabalho da Kaiser Family Foundation e do NPR, que também destacaram um abismo de teor racial no que diz respeito às atitudes - o que fica evidente num simples passeio por bairros diferentes da cidade.

Embora grande parte dos habitantes considere a qualidade de vida de New Orleans mais ou menos a mesma de antes do Katrina, segundo a pesquisa da universidade, para mais de um terço da população negra a situação piorou. A porcentagem dos brancos que afirmam que a qualidade de vida melhorou, 41%, é mais que o dobro da porcentagem dos negros que afirmam o mesmo.

"Veja, houve alguns ganhos reais", disse Andre Perry, de 44 anos, consultor da área de educação que veio paraNew Orleans depois do Katrina. "Mas este 10.º aniversário é perigoso, em vários sentidos. Acho que muitas pessoas estão dizendo: 'Olhem o que fizemos', como se o trabalho estivesse concluído. Enão está absolutamente concluído."

Dificuldades. Os habitantes negros, particularmente as mulheres, falam da grande dificuldade encontrada ao voltar e reconstruir sua vida depois da tempestade. Isso é explicado em parte em razão de alguns fatos complexos: os negros, muito provavelmente, viviam numa parte inundada da cidade e lugares mais castigados pela inundação, como Lower Ninth Ward, levaram muito mais tempo para se recuperar.

O fato de a dimensão da inundação estar diretamente relacionada à percepção da recuperação reflete-se também fora de New Orleans. A pesquisa mostra que habitantes das cidades vizinhas de Paquemines e St. Bernard Parishes, ambas predominantemente brancas e vítimas de uma inundação catastrófica, têm uma visão ainda mais sombria da recuperação do que os habitantes de New Orleans.

A pesquisa, realizada com 2.195 entrevistados, em New Orleans e em outras localidades do sul da Louisiana, foi feita por meio de entrevistas por telefone, de 7 de julho a 10 de agosto. A margem de erro na cidade foi mais ou menos de 5 pontos porcentuais.

Divergências. As visões divergentes sobre a situação da cidade talvez reflitam também uma mudança da composição social. Qualquer comparação da população de New Orleans, antes e depois do Katrina, é complicada, em parte porque, segundo alguns estudos, em 2005, a população não era estável, mas se encontrava numa trajetória descendente.

Além disso, as comparações também são dificultadas por que muitos dos que vivem hoje na cidade não são os que partiram. A pesquisa da Universidade da Louisiana concluiu que mais de 25% dos atuais habitantes se transferiu para New Orleans após a passagem do furação Katrina. E estas pessoas eram mais ricas, mais brancas e de escolaridade superior, em comparação aos moradores da época do desastre de 2005./ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*Campbell Robertson é jornalista

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