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EFE/ Antonio Melgarejo
EFE/ Antonio Melgarejo

Recusa de Keiko em aceitar derrota mostra como discurso de Trump contagia democracias

No Peru, Pedro Castillo, rival de Keiko, terminou a apuração à frente, mas o resultado deve passar pelo crivo da Justiça antes de ser homologado; candidata alega fraude e tenta impugnar cerca de 200 mil votos

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2021 | 05h00

Diante de uma derrota por 0,25 ponto porcentual na eleição presidencial peruana, Keiko Fujimori se recusa a ceder. Em vez disso, ela adotou o manual do ex-presidente Donald Trump, levantando acusações infundadas de fraude. Mas Keiko não está sozinha. Políticos de várias partes do mundo vêm contestando eleições, o que alguns especialistas enxergam como o surgimento de uma tendência.

No Peru, Pedro Castillo, rival de Keiko, terminou a apuração à frente, mas o resultado deve passar pelo crivo da Justiça antes de ser homologado. A candidata alega fraude e tenta impugnar cerca de 200 mil votos. “O resultado será revertido”, disse Keiko, durante um protesto em Lima, no sábado.

Especialistas enxergam paralelos com Trump. Advogados da candidata alegam erros na assinatura de cédulas e fraudes na apuração. Keiko não é a única. Em Israel, o ex-premiê Binyamin Netanyahu chamou o acordo da oposição que o retirou do governo de “fraude do século” e se colocou como vítima de uma “conspiração”. No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro, que disse antes da eleição de 2018 que só perderia se houvesse fraude, voltou a lançar dúvidas sobre a integridade das eleições brasileiras, fazendo comparações com Trump.

Em países com instituições fracas, alegações de fraude têm sido usadas para justificar um golpe militar, como em Mianmar, ou para prender líderes da oposição. A ONG Freedom House, que monitora o tema, alertou que o mundo vive um “declínio democrático de longo prazo”. E analistas afirmam que o padrão Trump continuará a encorajar os autocratas a manipularem eleições para se manterem no poder. “Esta epidemia de denúncias de fraude é apenas o próximo capítulo do manual do autocrata”, disse Kenneth Roth, diretor da Human Rights Watch.

“Quando a credibilidade é questionada da maneira como tem sido por Trump, isso cria um mau exemplo que outros líderes podem seguir, fornecendo um modelo para mudar resultados que eles não gostam”, disse Kenneth Roberts, professor de política latino-americana da Universidade Cornell. 

A nova cartilha envolve o uso de falsas alegações de fraude para desacreditar o resultado das eleições. Essas afirmações ressoam em sociedades altamente polarizadas, dizem os cientistas políticos, e as redes sociais desempenham um papel fundamental para amplificá-las.

No Peru, a onda de desinformação pós-eleitoral abrangeu todo o espectro político, incluindo imagens editadas de pessoas em comícios em Keiko segurando cartazes racistas e um tuíte falso do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, comemorando a vitória de Castillo.

Uma situação comum entre eles é o risco legal. Trump é alvo de várias investigações criminais. Netanyahu está sendo julgado por corrupção. Keiko contava com a presidência para protegê-la de processos judiciais por lavagem de dinheiro e obstrução da justiça.

De certa forma, as alegações de fraude feitas por Keiko são menos uma cópia de Trump e mais uma continuação do que ela já fez em 2016, quando perdeu a presidência para Pedro Pablo Kuczynski. “Na realidade, Trump é a latino-americanização da política dos EUA”, disse a analista peruana Giovanna Peñaflor. 

O presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, por exemplo, alegou fraude nas eleições que perdeu, em 2006 e 2012, se recusou a aceitar o resultado. “O que Trump fez foi abrir as portas para uma nova escala de alegações de fraude”, afirmou Peñaflor.

Steven Levitsky, cientista político de Harvard e coautor do livro Como as Democracias Morrem, diz que Trump “deu novo fôlego a essa estratégia”. O esforço, porém, foi letal. A insurreição de 6 de janeiro no Capitólio deixou cinco mortos. No fim, os rebeldes americanos não evitaram a posse de Joe Biden. 

É muito cedo para dizer o que vai acontecer no Peru, mas Levitsky descreve os possíveis cenários como preocupantes para a democracia. Para Levitsky, há chance de o establishment conservador em Lima pressionar as autoridades eleitorais ou tentar destituir Castillo. Outra possibilidade é uma escalada de violência que provoque um golpe. “As instituições dos EUA foram fortes o suficiente para resistir a Trump”, disse Peñaflor. “As instituições do Peru não são tão fortes.”

Observadores dizem que os acontecimentos recentes no Peru confirmam que a subversão do processo democrático nos EUA tem um efeito em cascata global. “Quando as coisas dão errado nos EUA, elas tendem a ecoar”, disse Kenneth Roth. Os efeitos podem ser duradouros. “Uma vez que a máquina eleitoral é politizada e não há mais confiança que ela seja apartidária, se torna impossível ter eleições”, afirmou Roberts./ WASHINGTON POST

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