REUTERS/Marcos Brindicci
REUTERS/Marcos Brindicci

Rede de cobrança da família do presidente operou no Brasil

Em sua defesa, argentino disse que offshore citada nos Panamá Papers foi criada para negócio que não se concretizou

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente / Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

22 Maio 2016 | 05h00

Em uma das primeiras oportunidades para explicar a presença de seu nome na diretoria da offshore Fleg Tradings, criada no Panamá e com sede nas Bahamas, o presidente argentino Mauricio Macri argumentou em abril que ela tinha sido feita para a implantação no Brasil de um negócio familiar de cobrança nunca concretizado.

Este mês, os jornais Página 12 e Ambito, de linha crítica ao governo, publicaram documentos da Junta Comercial de São Paulo com evidências de que a Pague Fácil, da família Macri, operou no Brasil no início dos anos 2000. A empresa iniciou atividade em 5 de março de 2001, sob o nome de Global Collection Services do Brasil. Contou com um capital inicial de R$ 10 mil e teve domicílio na Rua Leopoldo Couto Magalhães Júnior 110, em São Paulo. 

 Seguindo a linha de uma denúncia feita pelo deputado kirchnerista Darío Martínez e recebida pelo Judiciário, as reportagens ligam a Global Collection Services do Brasil à offshore Fleg Tradings. A Justiça investiga se existe mesmo esse nexo entre as duas empresas, o que enfraqueceria a defesa do presidente argentino. O juiz encarregado do caso é Sebastián Casanello, que dia 10 ordenou que entidades financeiras argentinas detalhassem as contas bancárias de Macri e pediu informações similares a vários países, entre eles o Brasil.

O presidente da Pague Fácil foi Marcelo Antonio Temporini, que ocupou o cargo entre dezembro de 2000 e dezembro de 2003. O presidente da Fleg, que durou de 1998 a 2009, era o patriarca Francisco Macri. O presidente argentino disse que nunca teve vantagem da participação nas empresas, criadas pelo pai.

Localizado pelo Estado, Temporini, cujo pedido para depor chegou à Justiça, deu sua versão sobre o negócio dos Macris no Brasil: “Eu nunca soube da existência dessa empresa panamenha até ver os jornais Página 12 e Ambito, quando saiu publicado o assunto Panamá Papers, ligando Macri a essa empresa. Posso assegurar que essa empresa panamenha não teve ligação direta com a Pague Fácil, que funcionou até meados de 2002 e fechou por falta de investimentos para expandir a operação”. O ex-presidente da empresa acrescentou que a crise argentina impediu que se encontrassem investidores.

Na última entrevista a jornalistas estrangeiros, em 6 de maio, o presidente argentino foi questionado reiteradamente sobre contradições em sua defesa. Ele disse ter tomado a iniciativa de se apresentar à Justiça e ter informado devidamente seu patrimônio ao Fisco. Antes da eleição, no ano passado, ele apresentou uma declaração no valor de 53 milhões de pesos (R$ 13,4 milhões).

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