Rede pode ter distribuído projeto de arma nuclear avançada

Investigadores encontram plano de construção em computador de traficante paquistanês de segredos atômicos

David E. Sanger, The New York Times

15 de junho de 2008 | 15h50

Investigadores americanos e internacionais afirmam que encontraram dados do projeto de uma arma atômica avançada nos computadores da rede de contrabando nuclear liderada pelo cientista nuclear paquistanês Abdul Qadeer Khan, porém ainda não foi possível determinar se os desenhos foram vendidos ao Irã ou para outros clientes da organização.   O projeto se assemelha com uma arma nuclear construída pelo Paquistão e testada pela primeira vez há uma década. Mas, quando confrontados com o desenho pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) no ano passado, oficiais paquistaneses insistiram que Khan, que confessou ter vendido segredos nucleares para Líbia, Irã e Coréia do Norte e tenta ser liberado da prisão domiciliar, não teve acesso aos projetos paquistaneses.   Durante entrevistas em Viena, Islamabad e Washington no ano passado, oficiais afirmaram que o projeto das armas era bem mais sofisticados do que os modelos descobertos na Líbia em 2003, quando o coronel Muammer el-Qadafi desistiu do programa nuclear. Naquele tempo, ele modificou o projeto de uma grande arma nuclear chinesa da década de 1960. Investigadores descobriram o envolvimento da rede contrabandista de Khan.   O projeto encontrado nos computadores de Khan na Suíça, Bangcoc e muitas outras cidades pelo mundo tinham a metade do tamanho e o dobro do poder da arma chinesa, com sistema eletrônico muito mais moderno, afirmam investigadores. O desenho está em formato eletrônico, eles afirmam, o que torna a cópia muito mais fácil - e eles não têm idéia de quantas cópias do desenho estão circulando.   Entre os mísseis que a arma menor pode levar, de acordo com especialistas em alguns armamentos, estão o iraniano Shahab III, que é baseado em um projeto norte-coreano. Entretanto, nos últimos dias, altos funcionários da inteligência americana disseram que não são capazes de determinar se o Irã obteve o projeto da nova arma. O Paquistão não permitiu que investigadores interrogassem Khan diretamente, considerado um herói por seu pais por desenvolver a bomba atômica, e as comunicações mais recentes entre os EUA e o novo governo do Paquistão foram de avisos de que Washington não permitirá que ele seja libertado.   A existência do projeto da bomba tornou-se público nas últimas semanas, depois que a Suíça anunciou que destruiu um grande número de documentos, incluindo projetos de armas, que foram encontrados nos computadores da família Tinner no país, que desempenhou papel crítico nas operações de Khan durante anos. Alguns detalhes da ação suíça e do projeto da bomba apareceram nos jornais do país, além do britânico The Guardian e do Washington Post neste domingo, 15.   A destruição suíça do equipamento veio em resposta ao caso do o engenheiro Urs Tinner, que está sob custódia por mais de quatro anos e ainda não foi julgado. Em maio, o presidente suíço, Pascal Couchepin, anunciou que mais de 30 mil documentos seriam destruídos, sob a justificativa de que o governo assim evitaria que ele "caíssem nas mãos de organizações terroristas ou Estados não autorizados", de acordo com agências de notícias suíças.   Oficiais da AIEA e americanos afirmam que destruir uma cópia dos arquivos era mais satisfatório para a Suíça do que seguro. Ainda não está claro se o mesmo material foi encontrado pela agência nuclear em outros países. Os suíços forneceram pouca informação sobre exatamente o que foi destruído, mas inspetores da AIEA acompanharam o processo e oficiais da inteligência americana estiveram envolvidos.   Dois ex-oficiais da administração Bush afirmam que acreditam que Tinner forneceu informação para a CIA enquanto trabalhava para Khan, e pode ainda ter ajudado oficiais britânicos e americanos a interceptar carregamentos de centrífugas para a Líbia em 2003. Quando as notícias da interceptação se tornaram públicas e o governo líbio entregou o seu programa nuclear de US$ 100 milhões para oficiais dos EUA e a AIEA, o presidente paquistanês, Pervez Musharraf, forçou Khan a dar uma vaga confissão e o manteve em prisão domiciliar. Nas últimas semanas, Khan desmentiu essa confissão em veículos de imprensa paquistaneses e ocidentais, afirmando que só as fez para salvar o país de um embaraço maior.   Dois anos mais tarde, oficiais da agência nuclear da ONU, baseada em Viena, finalmente conseguiram acessar os computadores de Khan espalhados pelo mundo. Selecionando arquivos e imagens, investigadores encontraram dados como pedidos de equipamentos, nomes e lugares onde a rede de Khan operava, até mesmo cartas de amor. "Havia material de negociações com iranianos em 2003, sobre como evitar agentes de inteligência", disse um oficial. Porém, o documento mais importante foi o projeto digital de uma bomba nuclear, a qual os investigadores logo reconheceram como paquistanesa. "Era claro de onde ele tinha vindo", disse outro alto funcionário da AIEA. "Porém, os paquistaneses querem argumentar que o caso Khan está encerrado, e disseram muito pouco".   A rede nuclear ilegal de Khan foi descoberta no início de 2004, e o presidente George W. Bush declarou em discurso que a operação era um dos maiores golpes da inteligência para os EUA nos últimos anos. Desde então, surgiram evidências de que a rede vendeu tecnologia de enriquecimento de urânio para o Irã, Coréia do Norte e Líbia, e investigadores ainda cogitam que Khan pode ter negociado com outros países.

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