Interpol / AFP
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Redoine Faid, assaltante, escritor e perito em fugas espetaculares na França

Redoine Faid se inspirou no cinema para virar assaltante, ganhou fama com autobiografia e fugiu de dois presídios

Andrei Netto / Correspondente, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2018 | 05h00

PARIS - Centenas de policiais da França perseguem há mais de um mês Redoine Faid, detento que fugiu de forma espetacular da prisão de Réau, a cerca de uma hora e meia de Paris. Para deixar o presídio, o assaltante contou com uma quadrilha que usou drones, um helicóptero, armas pesadas e explosivos para ser resgatado pela segunda vez – ele já havia fugido do presídio de Lille-Sequedin em 2013. 

]Também conhecido por alcunhas como “Escritor” ou “Camaleão”, Faid é um criminoso celebridade. Ficou famoso ao escrever um best-seller dizendo estar arrependido. De família argelina, nasceu em 1972, na cidade de Creil, na região de Picardie, uma das mais pobres da França. Apaixonado por cinema, decidiu virar assaltante depois de assistir centenas de filmes sobre ações criminosas espetaculares. 

Em 1990, meses após perder sua mãe, vítima de um câncer, Faid cometeu seu primeiro assalto a banco. Descoberto e preso após uma investigação policial, chegou a ser detido, mas respondeu ao inquérito em liberdade. 

Faid decidiu se aperfeiçoar no banditismo e investir contra carros-fortes. Para tanto, foi a Israel aprender a manipular explosivos com o crime organizado israelense. A inspiração, confidenciou a seu biógrafo, veio de um filme, Heat – Fogo contra Fogo, dirigido por Michael Mann e com Al Pacino e Robert De Niro. 

Em dezembro de 1995, Faid atacou uma agência do banco BNP Paribas de sua cidade natal, Creil, tomando o gerente e sua família como reféns. Na ação, o bando que comandou usou máscaras com o rosto de policiais franceses, uma marca de ousadia e desrespeito em relação às autoridades que o perseguiam. 

Dois anos depois, começou a série de ataques a carros-fortes. A cada ataque bem sucedido, Faid ostentava o fruto de sua agressividade com um estilo de vida luxuoso em Barbès, um bairro popular e pobre de Paris. Mas até então faltava a fama, que decidiu perseguir com ações mais espetaculares. A primeira delas veio em 1997. Usando máscaras de hóquei, como os personagens do filme Heat, interceptou um furgão de transporte de valores e fugiu com € 3 milhões. Ferido, foi identificado graças aos exames de DNA nas manchas de sangue.

Em fuga na Suíça, foi flagrado com documentos falsos e preso em um trem em setembro de 1998. Na ação, conseguiu fugir dos agentes, mas caiu, se machucou e acabou detido e hospitalizado. Dias depois, fugiu do hospital após roubar a arma do policial de guarda. 

Sua primeira prisão efetiva só ocorreu em 1998, oito anos após o início de sua carreira de crime. Identificado em uma agência de viagens quando comprava bilhetes para retornar a Israel, foi detido, julgado e condenado a 18 anos de prisão. Da pena, cumpriu 10 anos, voltando à liberdade condicional por bom comportamento em 2009. 

Uma vez em liberdade, continuou a se fazer célebre: anunciou com pompa e circunstância que abandonava a vida de crimes. Em um evento público na Cinemateca de Paris, interpelou o diretor Michael Mann para dizer que ele o inspirou em sua carreira de banditismo. 

Em 2010, publicou um livro, Braqueur : Des cités au Grand Banditisme (Assaltante: das periferias ao crime organizado, na tradução livre). Na obra, é descrito pelo jornalista Jérôme Pierrat, coautor do texto, como um homem “afável, educado, bem vestido com ternos ajustados – o contrário de um bandido de periferia”. “Ele era a antítese do gângster sociopata”, diz Pierrat. 

Para divulgar a obra, Faid ganhou espaço em grandes emissoras de TV, atraídas pela história do célebre assaltante de bancos arrependido e reintegrado à sociedade. Na rede de TV LCI, declarou: “Meus demônios estão completamente mortos”.

Era mentira. Poucos meses depois, em 20 de maio de 2010, tentou novo assalto ao lado de outros três homens na cidade de Villiers-sur-Marne. No ataque abortado, uma policial municipal, Aurélie Fouquet, de 26 anos, foi ferida e morreu. Faid já se havia tornado um dos mais conhecidos e perigosos assaltantes da França. Condenado à revelia a 18 anos de prisão e preso em junho de 2011, passou a cumprir pena no presídio de Lille-Sequedin, no norte do país.

De lá escapou graças a uma ação orquestrada, com explosivos e tomada de reféns. Passou a ser procurado pela Interpol em 190 países. Preso e condenado outras duas vezes, em 2016 e 2018, a 25 anos de prisão, cumpria pena em Réau, a uma hora e meia de Paris.

De lá voltou a escapar, dessa vez em uma ação ainda mais espetacular: com uso de drones para verificação da segurança da

penitenciária, de um helicóptero e um piloto sequestrados, e de três homens armados de fuzis AK-47, de explosivos e de sinalizadores para provocar uma cortina de fumaça nas câmeras de segurança.

Fuga ‘antecipada’ por revista teve ajuda de mafiosos

Quando fugiu do presídio de Réau em um helicóptero sem deixar nenhum morto ou ferido, Redoine Faid produziu aquela que é considerada sua “obra-prima” no crime. O enredo, entretanto, já era conhecido. Antes da fuga, a revista semanal L’Obs revelou o plano do assaltante de fugir da penitenciária usando homens armados e com a ajuda da máfia da Córsega, a ilha do Mediterrâneo marcada pelo nacionalismo e pelo crime organizado.

O texto informou como Faid havia contatado um dos “poderosos chefões” da máfia, Jacques Mariani, que também está preso, para organizar sua fuga. Mariani, de 52 anos, é filho de outro barão da máfia corsa, Francis Mariani, assassinado em 2009 quando ainda liderava a Brisa do Mar, uma das máfias locais mais poderosas durante mais de 30 anos. 

O esquema ligando Faid à máfia veio à tona graças à delação premiada de um ex-executivo que acabou se envolvendo com os criminosos da ilha em suspeitas de estelionatos no mercado imobiliário na Alemanha. O delator procurou a polícia depois que dois homens invadiram o saguão do aeroporto de Bastia, na Córsega, e, alegando que gravavam uma cena de cinema, mataram a sangue frio outros dois membros de máfias locais. 

As duas vítimas seriam próximas de outro patrão mafioso, Jean-Luc Germani, também preso, que comanda o crime na ilha do interior do presídio. Germani seria o mandante do assassinato de Francis Mariani. 

Em meio aos múltiplos acertos de contas entre mafiosos da Córsega, o ex-executivo decidiu contar à polícia o que sabia. Na sua casa, os investigadores encontraram uma lista de cerca de 20 policiais da Córsega, de Marselha e de Nanterre, região metropolitana de Paris, que colaborariam como informantes do clã Germani. E essa lista havia sido fornecida a Redoine Faid.

As suspeitas de ligação da máfia com policiais e agentes penitenciários corruptos nas ações do assaltante cresceram com as investigações. Pressionada, a ministra da Justiça, Nicole Belloubet, anunciou na semana passada a reformulação da administração penitenciária.

 

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