Wolfgang Rattay/REUTERS
Wolfgang Rattay/REUTERS

Redutos da extrema direita na Alemanha são áreas mais afetadas pela covid-19

Estudo mostra que regiões mais afetadas do país são aquelas com tendência de votar para um dos principais partidos da extrema direita, o AfD; situação é grave nos Estados que integraram a Alemanha Oriental

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2020 | 13h59

BERLIM - Coincidência ou correlação? As áreas mais afetadas na Alemanha pela segunda onda da pandemia são redutos da extrema direita, opostos às restrições e sensíveis às teorias da conspiração sobre a pandemia.

A Alemanha, o 'país exemplar' europeu durante a primeira onda da pandemia, enfrenta dificuldades para reduzir infecções, com cerca de 20 mil novos casos registrados a cada dia e um número recorde de mortes nesta quarta-feira, 9, com 590 mortos, o que provocou forte reação da chanceler Angela Merkel.

"Há muito contato entre as pessoas", disse, citando como exemplo as barracas de comida montadas nos tradicionais mercados de Natal. “Lamento muito, mas se isso significa pagar um preço diário de 590 mortes, do meu ponto de vista, não é algo aceitável”, acrescentou.

Merkel considerou "justificadas" as propostas de um grupo de especialistas que defendem o fechamento para todas as lojas não alimentícias e escolas entre o Natal e meados de janeiro. “Temos de fazer de tudo” para evitar “uma progressão exponencial” no número de casos, insistiu a chanceler.

A situação é especialmente alarmante nos antigos Estados do leste do país. "É surpreendente notar que as regiões mais afetadas são aquelas onde o voto na AfD (Alternativa para a Alemanha, partido de extrema direita) foi mais alto", afirmou o comissário do governo dos ex-Estados do Leste, Marco Wanderwitz. Ele se refere às eleições legislativas de 2017. 

A Saxônia, região da ex-Alemanha Oriental, é o caso mais emblemático. Tem a maior taxa de incidência da Alemanha, atingindo 319,4 casos por 100 mil habitantes na terça-feira, quando a média federal sobe para 114,2, segundo o Instituto Robert Koch. O Estado colocou a AfD na liderança em 2017 (27%) e deu ao partido de extrema direita seu melhor resultado federal.

Uma equipe do Instituto para a Democracia e Sociedade Civil, com sede em Jena, na Turíngia, acaba de lançar um estudo sobre "a correlação estatística forte e muito significativa" entre a votação na AfD e a intensidade da pandemia. 

“Pode haver fatores que explicam os altos resultados do AfD e, ao mesmo tempo, altos valores de incidência”, escreveu no Twitter o diretor do instituto, Matthias Quent. Ele alertou que esse não é o único fator explicativo. 

A proporção de idosos e famílias numerosas, a presença de trabalhadores de outros países e a organização do sistema de saúde, que difere de Estado para Estado, também influenciam o dinamismo da pandemia.

Partidários do AfD mantém ceticismo com medidas do governo contra a pandemia

Entre os partidos alemães, entretanto, a AfD é a única que tornou público seu ceticismo e até mesmo sua oposição às restrições. Seus deputados estavam relutantes no Parlamento em usar máscara.

Mais de um em cada dois eleitores da AfD (56%) considera as medidas restritivas excessivas, de acordo com uma pesquisa recente do Instituto Forsa. E há muitas conexões com o movimento alemão "livre-pensadores", que reúne uma mistura de críticos da vacina, conspiradores e simpatizantes de extrema direita em manifestações regulares

Cerca de um terço desses manifestantes gostaria de votar no AfD nas eleições de 2021, revelou um estudo para o tradicional jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung. Na Saxônia, a situação de saúde se deteriorou tanto que as autoridades anunciaram restrições severas na terça-feira, com o fechamento de escolas, creches e várias lojas.

Em cidades saxãs como Görlitz e  Bautzen, onde a extrema direita seduz mais de um em cada quatro eleitores, a taxa de incidência é próxima a 400. Por outro lado, na primeira cidade do Estado, Leipzig, onde a esquerda está cada vez mais forte, a taxa de incidência está próxima da média federal, com 140,1 na terça-feira./  AFP

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