REUTERS / Stefan Wermuth
REUTERS / Stefan Wermuth

Reeleição de Cameron fortalece ideia da saída britânica da UE

Primeiro-ministro volta a prometer consulta popular - a ser realizada até 2017 - sobre permanência no bloco

Fernando Nakagawa, CORRESPONDENTE

10 de maio de 2015 | 03h00

LONDRES - Com cada vez mais imigrantes ilegais vivendo na Grã-Bretanha, cresce o descontentamento da população e a imigração tornou-se, inevitavelmente, o principal problema do país para 36% dos britânicos. Por isso, foi um dos temas mais debatidos na campanha eleitoral vencida pelo primeiro-ministro conservador, David Cameron, na quinta-feira. 

Diante dessa insatisfação do eleitorado britânico, o Partido Conservador, de Cameron, apresentou uma das propostas mais discutidas na campanha: um referendo sobre a saída da Grã-Bretanha da União Europeia (UE). 

Cameron reafirmou a promessa no discurso da vitória e pretende organizar a consulta até 2017. Caso o país decida sair do bloco, o fluxo de imigrantes, pelo menos em teoria, diminuirá. Seria a chamada “Brexit” – termo criado com a união de “Bretanha” e “exit” – “saída” em inglês.

É relativamente fácil entender as razões que levaram Cameron a oferecer essa solução. Estimativa do Escritório Nacional de Estatísticas (ONS, na sigla em inglês) diz que cerca de 2,4 milhões de estrangeiros ingressaram com a intenção de viver em solo britânico nos dez anos até 2013, quando entraram cerca de 209 mil pessoas. 

Ao contrário de outras épocas, quando o fluxo vinha de longe, como Jamaica e Índia, o movimento recente tem origem próxima. Em 2013, o ONS estima que 183 mil cidadãos da UE tenham imigrado. 

Assim, o bloco foi fonte de mais de 80% do fluxo. Atualmente, esse contingente tem portas abertas. A “Brexit”, porém, barraria boa parte dessa migração, que custa até 5 bilhões de libras por ano aos cofres públicos, segundo estudo do Observatório de Migração da Universidade de Oxford.


Perspectivas. As possibilidades de saída da UE, no entanto, causam calafrios em alguns setores diante de análises que preveem um impacto econômico negativo na economia britânica. Mas há estudos que dizem o contrário. Para tirar proveito da situação, Londres teria de adotar uma agenda própria, menos regulamentada que a seguida por Bruxelas, e olhar para muito além do outro lado do Canal da Mancha, para os Estados Unidos ou para países emergentes, como Índia, Brasil, México, China e Rússia.

“Não sabemos quão significativa é a intenção da ‘Brexit’ de Cameron. Ele não deu detalhes sobre de que lado está. A maioria dos líderes empresariais quer continuar na UE e os próprios europeus nos querem”, disse ao Estado o analista da gestora de investimentos Schroders, em Londres, Rory Bateman. 

Preocupação econômica. Em 2014, a Grã-Bretanha teve déficit comercial de 76 bilhões de libras (cerca de R$ 350 bilhões) com os parceiros europeus. “Por outro lado, temos um superávit de 19 bilhões de libras (cerca de R$ 88 bilhões) no setor de serviços. Só espero que o debate leve em conta o impacto econômico.” 

Mesmo sem ter a moeda europeia no bolso, operadores do mercado financeiro em Londres são responsáveis pelo maior volume de negócios com o euro em todo o mundo. O mesmo acontece com outros ativos europeus. 

Por isso, os principais bancos europeus estão especialmente preocupados com o tema. Em tom de quase ameaça, algumas autoridades ligadas ao Banco Central Europeu já reclamaram do tema e sugeriram migrar o gigantesco mercado de câmbio para Paris ou Frankfurt – cidades que usam o euro.

Mas, ao contrário dos discursos alarmistas ouvidos no mercado financeiro, o centro de estudos Open Europe defende que ainda não é possível ter certeza de qual seria o impacto de uma saída da Grã-Bretanha da União Europeia. 

“O resultado não é tão claro. O resultado final depende de uma série de decisões difíceis. Isso inclui saber se os britânicos estão dispostos a aceitar a desregulamentação da economia e a abertura do país ao livre comércio”, conclui um estudo do centro. 

No pior cenário, o Open Europe entende que a desistência da UE poderia reduzir o tamanho da economia britânica em até 2,2% em 2030 – prejuízo de quase 40 bilhões de libras. A perda viria especialmente da redução de mercados para as empresas britânicas. 

O estudo, no entanto, também mostra que o desdobramento pode ser positivo e o melhor cenário prevê britânicos 1,6% mais ricos em 2030. A melhora seria em razão dos menores gastos com a burocracia europeia – como regras ambientais e regulamentação da economia – e o aumento das exportações. 

Nova fase. Curiosamente, esse cenário envolve um acordo de livre comércio com a UE. Ou seja, a Grã-Bretanha passaria a ser somente parceira comercial do bloco, sem acordos multilaterais em matéria de imigração ou legislação comum.

Apesar de reconhecer que deixar a UE não é o pior dos mundos, o presidente do centro de estudos Open Europe, Rodney Leach, defende a parceria com Bruxelas. “Se a Grã-Bretanha dedicar todo esse esforço que seria usado com a ‘Brexit’ para tentar reformar a UE, Londres e também a União Europeia poderão estar em melhor situação no futuro.”

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