David Mercado / Reuters
David Mercado / Reuters

Reeleição de Evo depende da geração que cresceu sob seu governo

Um terço do eleitorado tem 30 anos ou menos e parte indica que não pretende votar no atual mandatário

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2019 | 06h00

LA PAZ - Reynaldo Kantuta, um desenvolvedor de software de 27 anos, representa em muitos aspectos os avanços da Bolívia em mobilidade social sob o comando de Evo Morales, desde que o líder de esquerda se tornou o primeiro presidente indígena do país, em 2006.

O pai de Kantuta, um índio aimará, migrou de uma vila andina atingida pela seca aos 15 anos, uma jornada que o forçou a comer cascas de banana para sobreviver. Terminou em La Paz, onde muitas vezes enfrentou discriminação e humilhação.

Graças, em parte, a bolsas de estudos do governo para universitários e melhores perspectivas para a população não branca, Kantuta tem um emprego formal, fala inglês, toca violão e planeja iniciar seu próprio negócio. Mas Kantuta não votará em Evo, há quase 14 anos no poder. “Evo não trouxe mudança suficiente ao país”, disse o jovem. A mãe de Kantuta morreu de câncer depois de não conseguir tratamento em hospitais públicos. Ele diz que em várias ocasiões lhe pediram propina quando tentou obter um emprego no setor público.

E, agora que entende um pouco mais sobre economia, ele teme que a Bolívia possa estar indo para o tipo de crise que tomou conta da Venezuela e da Argentina. “O que ele quer é poder, não o bem-estar do país”, disse Kantuta sobre o presidente. “Evo Morales só tende a ajudar quem o apoia.”

Entre outras queixas, Kantuta reclama que sempre que sai de casa vê o rosto ou o nome de Evo nos espaços públicos, como praças e transportes públicos. “Ele está em todos os lugares.”

Esperança nos jovens

As esperanças de Evo para garantir um quarto mandato dependem, em parte, de eleitores como Kantuta, um dos mais de 2,5 milhões de bolivianos com 30 anos ou menos - mais de um terço do eleitorado -, adolescentes e adultos que viveram sob um único líder.

Essa “geração Evo” é um lembrete de quanto tempo o político está no poder. Ele já é o presidente há mais tempo no cargo na América Latina e, se vencer, estenderá seu governo a quase duas décadas.

O fato de estar concorrendo também é motivo de controvérsias. Evo foi autorizado por uma decisão judicial a fazer campanha novamente, apesar dos limites de mandato impostos pela Constituição e de um referendo que o proibiu de concorrer mais uma vez.

Visões diferentes

Para outros jovens bolivianos, é difícil imaginar a vida sem seu líder. Essa geração cresceu em um raro período de estabilidade econômica e política, ajudada por uma demanda sem precedentes por recursos naturais. Por isso, muitos veem Evo como a força por trás da garantia de que os benefícios serão amplamente distribuídos.

“A Bolívia agora é totalmente soberana e há uma estabilidade econômica que você realmente pode ver”, disse Yubinca Villena, estudante de linguística e professora de balé de 24 anos, acrescentando que, se Evo for derrotado, muito desse progresso pode ser perdido.

Milenka Siles, estudante de enfermagem de 19 anos, disse que Evo merece reconhecimento. Segundo ela, sua primeira memória dele é de um político que ninguém dizia que seria presidente porque é índio. “Ele mostrou que estavam todos errados”, disse Siles, que pretende depositar o primeiro voto de sua vida em Evo Morales. / REUTERS

Notícias relacionadas
    Tudo o que sabemos sobre:
    Evo MoralesBolívia [América do Sul]

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    Tendências:

    O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.