J. Scott Applewhite/AP
J. Scott Applewhite/AP

Reeleito, Obama fala com líder republicano em busca de acordo fiscal

Segundo NYT, em conversa 'cordial', ambos concordaram que pacto fiscal é prioridade

Denise Chrispim Marin, correspondente

08 de novembro de 2012 | 10h56

WASHINGTON - Reeleito na terça-feira, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, já conversou com o líder do Partido Republicano e presidente da Câmara dos Deputados, John Boehner, sobre um acordo bipartidário para evitar o chamado "abismo fiscal". Segundo o jornal The New York Times, a conversa entre os dois foi "cordial" e ambos concordaram que é preciso chegar a uma posição comum o quanto antes.

 

Se nos próximos meses não houver um acordo fiscal no Congresso americano, entrará em vigor um dispositivo legal que prevê amplo corte de gastos do governo - o que, segundo analistas, levaria rapidamente o país a uma recessão.

 

A jornalistas, Boehner reconheceu que será preciso aumentar impostos e evitar uma redução brusca do gasto público, posições que muitos dentro do Partido Republicano rejeitam. O presidente da Câmara afirmou: "Estamos prontos para sermos liderados (pelo presidente Obama) - não como republicanos ou democratas, mas como americanos. Queremos que você (Obama) nos lidere, não como um liberal ou um conservador, mas como o presidente dos EUA".

 

Ao subir no palco para seu discurso de vitória, em Chicago, Obama conclamou o país à união. O presidente venceu com o apoio dos eleitores latinos, mulheres, jovens e negros, grupos que seu rival republicano Mitt Romney não conseguiu sensibilizar. Também ajudou seu argumento sobre a diferença entre sua visão de governo e a de seu adversário.

 

"Nesta noite, mais de 200 anos depois de uma ex-colônia ter ganhado seu direito de determinar seu próprio destino, a tarefa de aperfeiçoar nossa união segue adiante. E vai em frente por causa de vocês. Porque vocês reafirmaram o espírito que tirou este país da profundeza do desespero às mais elevadas esperanças", disse.

 

A mensagem veio acompanhada, pouco adiante, por uma inusitada promessa, a de reunir-se com Romney nas próximas semanas para conversar sobre "como trabalhar juntos". Fustigado pela polarização política em Washington, que impediu a aprovação de várias de suas promessas de campanha, Obama apresentou-se mais conciliador, menos disposto a repetir erros e ansiosamente disposto a dialogar.

 

O suposto convite, porém, foi considerado uma forma de pressão. Thomas Mann, analista do Brookings Institution, afirmou ao Estado que Obama sempre esteve aberto ao diálogo com os republicanos, que sempre se recusaram. "Agora, ele está tentando pressioná-los a sentar-se à mesa. Os republicanos terão de mudar. Terão de se tornar menos ideológicos e mais prontos a resolver problemas, menos excludentes e mais respeitosos das diferenças, menos propensos ao individualismo e mais abertos à visão de comunidade."

 

A trégua tem chances remotas com a posse dos novos congressistas. O novo Congresso está ainda mais polarizado, com maior presença da esquerda no Senado e da direita radical na Câmara. A necessidade de os republicanos repensarem suas políticas deve demorar a ser digerida. A rigor, o eleitor republicano está se resumindo, cada vez mais, aos eleitores brancos. Obama foi eleito com 93% de votos dos negros - que compõem 13% do eleitorado -, 71% de votos dos latinos, 55% do voto feminino e 60% dos jovens.

 

Romney não indicou estar aberto ao diálogo, apesar de ter enfatizado em seu discurso ontem que está preocupado com a "situação crítica" vivida pelos EUA. "Eu rezo para o presidente ter sucesso na condução do país", disse. "Essa eleição terminou, mas os nossos princípios permanecem. Eu realmente queria preencher nossas esperanças e liderar o país em uma direção diferente, mas a nação escolheu outro líder."

 

O primeiro teste de diálogo entre Obama e a oposição republicana ocorrerá antes mesmo de sua posse para o segundo mandato, em 21 de janeiro. Sem acordo com a maioria opositora na Câmara, o impasse envolvendo o ajuste nas contas públicas pode levar o país à crítica situação de suspensão dos pagamentos de despesas correntes e da dívida federal logo no primeiro dia do ano. Obama poderá ser forçado a realizar um corte automático de despesas adicionais nas áreas social e de defesa. É o chamado "abismo fiscal", que levaria o país a uma nova crise e arruinaria o segundo mandato do presidente.

 

Segundo Thomas Mann, a polarização está clara no resultado eleitoral. Outros componentes, porém, podem facilitar a união entre democratas e republicanos. Entre esses fatores está o fracasso da estratégia republicana de manter uma oposição veemente ao governo Obama. O alerta do presidente foi direto ao ponto: sem acordo, a família americana morrerá toda abraçada. 

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