Refém libertado acusa Farc de executarem 11 colegas de cativeiro

Ex-deputado Sigifredo López diz que companheiros não morreram em ?fogo cruzado?, como alegava a guerrilha

Bogotá, O Estadao de S.Paulo

06 de fevereiro de 2009 | 00h00

Libertado ontem por uma missão humanitária organizada pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) com o apoio logístico do Exército brasileiro, o ex-deputado Sigifredo López, refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) há sete anos, acusou a guerrilha de ter executado 11 de seus colegas de cativeiro. Acompanhe a cronologia dos sequestros realizados pelas FARCLópez, o último civil do grupo de reféns políticos das Farc, foi sequestrado em 2002 com outros 11 deputados num ousado ataque das Farc contra a Assembleia Legislativa de Valle del Cauca, no sudoeste da Colômbia. Em julho de 2007, um comunicado da guerrilha anunciou a morte dos 11 colegas de López num episódio que até agora estava coberto de mistério. Segundo a guerrilha, eles morreram "no fogo cruzado" quando um grupo militar não identificado atacou o acampamento onde estavam. Sabe-se que os rebeldes têm ordem para matar os reféns quando se sentem ameaçados, mas nesse caso sempre houve indícios de execução. As declarações de López, único sobrevivente do episódio, confirmam as suspeitas. "Meus companheiros não mereciam morrer como morreram", disse o ex-deputado. "Eles foram massacrados pelas Farc às 11h30 do dia 18 de junho."Ele explicou que tudo começou em 14 de junho de 2007, quando foi separado do grupo como castigo por ter elevado a voz. Quatro dias depois, escutou primeiro dois disparos e em seguida várias rajadas. "Joguei-me no chão, pensando que era um resgate", disse López. Um rebelde apareceu e o levou a uma casa usada como laboratório de cocaína. Dias depois, ele soube pela rádio que seus companheiros tinham sido mortos. Um comandante das Farc disse que integrantes da Frente 19 do grupo tinham chegado ao acampamento sem avisar, o que provocou o tiroteio. "Mataram por covardia, por paranoia, porque tinham a ordem de matar os reféns e não deixar que levassem os troféus." Após ser resgatado de um ponto não revelado do sudoeste da Colômbia por um helicóptero brasileiro, López, de 45 anos, chegou por volta das 14 horas locais (17 horas em Brasília) ao aeroporto da cidade de Cali, capital do Departamento de Valle del Cauca. Ele foi recebido aos gritos de "Liberdade" por dezenas de amigos, jornalistas e parentes - entre eles sua mulher, Patrícia Nieto, e seus dois filhos, Lucas e Sérgio. López é o sexto e último refém que as Farc prometeram libertar unilateralmente num comunicado divulgado no dia 21 de dezembro. No domingo, foram resgatados da selva colombiana três policiais e um militar. Na terça-feira, ganhou a liberdade o ex-governador de Meta Alan Jara, que estava nas mãos da guerrilha havia mais de oito anos.Segundo as Farc, a libertação dos seis sequestrados foi um gesto para impulsionar um acordo humanitário. Todos faziam parte do grupo de reféns políticos que a guerrilha pretende trocar com o governo colombiano por 500 rebeldes presos. O grupo já chegou a ter 60 integrantes. Agora é formado por 22 reféns e, com a saída de Jara e López, não há mais nenhum civil: são 14 policiais e 8 militares. Ontem, López fez uma referência a esses reféns ao pedir mais empenho da guerrilha e do governo para um acordo humanitário. "Essa é a única possibilidade de trazer com vida os 22 militares (e policiais) que estão amarrados em árvores há 10 anos", disse o ex-deputado. Além dos reféns políticos, as Farc mantêm em cativeiro mais de mil sequestrados por "motivos econômicos", pelos quais pedem resgates.Antes de partir para o resgate de López, a senadora Piedad Córdoba disse ter enviado para ao chefe militar das Farc, Jorge Briceño (também conhecido como Mono Jojoy), uma carta pedindo que a guerrilha flexibilize as exigências para o acordo humanitário. Durante a operação, que Piedad descreveu como cinematográfica, ela recebeu uma carta do número 1 das Farc, Alfonso Cano, que assumiu o lugar de Manuel Marulanda, morto no ano passado. Piedad poderia divulgar ainda ontem o conteúdo da mensagem.BRASILO presidente colombiano, Álvaro Uribe, telefonou ontem a seu colega brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, para agradecer pelo apoio logístico e operacional do Brasil na ação de resgate. Uribe também conversou com telefone com López, com quem manteve um "diálogo fraterno", indicou um comunicado da presidência colombiana.O assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, disse ao Estado que considera o resultado da operação "muito positivo" e o convite feito ao Brasil para que participasse dando apoio logístico à operação "é um reconhecimento da atuação brasileira diante dos temas regionais e especialmente os problemas da Colômbia". Garcia destacou a prudência do governo em respeitar estritamente os critérios de confidencialidade impostos pelo CICV desde o período de planejamento da operação. "Não fizemos nada que não estivesse no acordo ou não correspondesse à expectativa do governo colombiano."EFE, REUTERS, AFP E AP. COLABOROU JOÃO PAULO CHARLEAUXAPELO E DENÚNCIASigifredo LópezEx-refém das Farc"Um acordo humanitário é a única possibilidade de trazer com vida os 22 militares e policiais que estão amarrados em árvores há 10 anos""Meus companheiros não mereciam morrer como morreram. Eles foram executados pelas Farc"

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