Reprodução/LiveLeak
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Reféns libertados pelo Estado Islâmico tentam retomar suas vidas

Jihadistas dizem que reféns receberam indulto do EI; fontes do Curdistão alegam que governo pagou ao grupo extremista  

O Estado de S. Paulo

22 de janeiro de 2015 | 11h38


MOSSUL - Jami Yamu, de 63 anos, viveu cinco meses e 16 dias sob o domínio do grupo Estado Islâmico (EI) no povoado iraquiano de Tal Afar. "Nos maltrataram e tiraram nossos pertences. Não são seres humanos, são monstros", afirma o ex-refém do grupo extremista.

Aidu Haji, de 68 anos, tem cada segundo gravado em sua mente. "Nos trataram muito mal. Não nos davam comida e nos pressionavam e ameaçavam com armas para que nos convertêssemos ao islã."

Após serem libertados no domingo 18, cerca de 200 yazidis voltam a sentir a vida, embora com o rosto pálido pelo cansaço e a saúde deteriorada, após cinco meses sob poder do EI em Mossul, no norte do Iraque.

Destroçados e assustados, lembraram a tortura do cativeiro, que começou quando os extremistas tomaram o controle da maior parte da região norte do Iraque em julho do ano passado, expulsando, matando ou sequestrando os seguidores da religião yazidí.

Burges Elias, de 61 anos e com notável cansaço estampado no rosto, relata como "uns barbudos", em referência aos jihadistas do EI, separaram as mulheres de seus maridos, "de quem não sabem nada desde então", e as obrigaram a ficar em casa até "serem sequestradas" horas mais tarde.

O grupo de reféns, entre eles crianças, mulheres e idosos, foi preso na prisão da cidade de Tal Afar, ao oeste de Mossul, embora mais tarde tenham sido levados a outro centro, em Al Rin, perto da província de Kirkuk, até sua libertação.

Ao fim do sequestro, foram andando até zonas controladas pelas forças curdas, segundo explicou o diretor de Assuntos Yazidis na província de Dohuk, Hadi Dubani, afirmando que a libertação se deve ao fato dos sequestrados "sofrerem doenças crônicas".

Os 196 libertados foram levados a Arbil, capital do Curdistão iraquiano, para passar por exames médicos e, posteriormente, ir a um templo em Dohuk. Lá, eles foram recebidos com aplausos, abraços e lágrimas de moradores e alguns parentes.

Uma das libertadas, de 70 anos de idade, morreu ao descer do ônibus e abraçar uma de suas filhas. Seu primo Jairi Shankali contou que a mulher yazidí não aguentou o cansaço acumulado após cinco meses de sequestro.

Jasem Jamu quase não tinha palavra. Aos 73 anos, está "esgotado" e sua maior lembrança é de como os jihadistas matavam os jovens yazidis e capturavam suas mulheres. "Estávamos em um prédio muito grande retidos por homens que andavam armados e de lá vimos mais de 500 mulheres yazidis que foram capturadas em diferentes aldeias de Sinjar. Não sabemos onde estão agora", acrescentou Jamu.

A alguns dos sequestrados, os jihadistas explicaram que o líder do EI, Abu Bakr al-Baghdadi, tinha dado um indulto aos yazidis, que por isso seriam libertados. No entanto, fontes oficiais do Curdistão mantêm a versão de que a libertação ocorreu em troca do pagamento de uma soma de dinheiro pelo governo curdo.

O representante dos yazidis no Conselho Provincial de Ninawa, Jadida Hamua, pediu à comunidade internacional e à ONU para ajudar na libertação dos mais de cinco mil cidadãos sequestrados pelo EI.

Os libertados viverão em um templo em Dohuk à espera da libertação de seus parentes e, sobretudo, até poder recuperar a casa em que viviam e conseguir algum dinheiro para comer. /EFE

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