Referendo decide hoje futuro de Chávez

Cerca de 14 milhões de venezuelanos estão habilitados para ir às urnas hoje para decidir se revogam ou não o mandato do presidente Hugo Chávez, acusado pela oposição de governar de forma autoritária e pretender impor ao país um regime ditatorial ao estilo de seu amigo cubano Fidel Castro. Rejeitando as acusações de seus adversários, aos quais qualifica de golpistas, Chávez espera, com base nas últimas pesquisas, festejar seu quarto triunfo eleitoral desde que chegou ao poder, em 1998. Na quinta-feira à noite, Luis Vicente León, diretor do instituto de pesquisas Datanalisis, declarou que o ?não? (que favorece Chávez) lidera as intenções de voto, mas, por força da lei eleitoral, não divulgou mais detalhes da sondagem. ?A pesquisa que realmente vale é a das urnas?, disse ao Estado um dos coordenadores voluntários da campanha pelo ?sim?, Nicolás Simón. ?Muitos que se dizem chavistas para os institutos de pesquisa votarão ?sim? no domingo?, acrescentou, repetindo a alegação que se tornou quase um mantra para os oposicionistas. Vença quem vencer, o grande receio de boa parte da população do país, e de Caracas em especial, é o de que a parte derrotada não aceite o resultado. Desde 1998, quando Chávez chegou ao poder com 34% dos votos (a eleição presidencial venezuelana se realiza em turno único), o país tem enfrentado uma longa seqüência de crises, que já contabiliza um frustrado golpe militar, duas greves gerais que quase levaram a economia venezuelana a nocaute e choques armados que já deixaram pelo menos 50 mortos. A oposição acusa Chávez de ter dividido o país, incitando o ódio social dos mais de 80% de venezuelanos empobrecidos. Tenente-coronel da reserva do Exército, Chávez alcançou o poder pelo voto depois de tê-lo tentado pela força em 1992, quando liderou uma fracassada tentativa de golpe contra o então presidente, Carlos Andrés Pérez. Sua vitória marcou o fim dos partidos políticos que por décadas se alternaram na liderança do país: a Ação Democrática e o social-cristão Copei. Chávez prometia levar às últimas conseqüências sua revolução bolivariana, o plano de corte esquerdista e latinista com o qual pretendia solucionar os problemas sociais do país, e promulgar uma nova Constituição. A nova Carta acabou aprovada em 1999, na segunda grande vitória de Chávez nas urnas, mas o processo constituinte o isolou politicamente e levou ao irreconciliável rompimento com partidos que o apoiavam, a classe empresarial e os meios de comunicação. Com o respaldo apenas das classes C, D e E e de parte importante das Forças Armadas, conseguiu vencer novamente na eleição de 2000, que reconfirmava todos os mandatos eletivos do país, para governar até 2007. Em 2002, conseguiu resistir e impor um contra-golpe ao golpe militar que o removeu do poder por 48 horas. ?Como podem dizer que é ditador ou que não é democrático alguém se submeteu às urnas tantas vezes??, perguntava na sexta-feira, no metrô de Caracas, um estudante que ? violando a lei eleitoral que proibia propaganda política desde a noite anterior ? vestia uma camiseta vermelha do ?não?. Para chegar ao referendo revogatório, um instrumento contemplado na Constituição de 1999, a Coordenação Democrática (CD), que agrega as forças da oposição, teve de enfrentar um longo caminho e as quase sempre tendenciosas decisões do Conselho Nacional Eleitoral (CNE). Depois de reunir, em novembro, mais de 3 milhões de assinaturas para ativar o referendo, o CNE cancelou mais de 800 mil delas, alegando que tinham sinais de adulteração. Só em junho, após um novo processo de confirmação dessas assinaturas, a oposição obteve o número de firmas necessário para convocar o referendo. Chávez deixa o poder se o ?sim? obtiver no m í n i m o 3.757.774 votos ? votação com a qual o presidente foi eleito em 2000 ?, desde que o ?não? tenha um número de votos inferior. No caso de o mandato ser revogado, assume o cargo o vice-presidente José Vicente Rangel pelo período de um mês, até que sejam realizadas novas eleições presidenciais. Nesse caso, a lei não impede Chávez de candidatar-se outra vez. ?Ainda que perca no referendo, a derrota não transformará Chávez num cadáver político?, analisa a última edição da revista Cambio, ressaltando que o presidente tem mais de 30% de votantes fiéis.

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