Referendo deve criar o Sudão do Sul

Se tudo correr como o esperado, cerca de 3,9 milhões de sudaneses aprovarão hoje a criação de um novo país na África: o Sudão do Sul. Segundo pesquisas, 97% votarão a favor da separação. Para que isso ocorra, bastam a maioria simples e um comparecimento de 60% dos eleitores registrados. Este porcentual deve ser atingido, apesar da ação de rebeldes. Ontem, nove pessoas morreram em combates no sul da futura nação.

AP e LOS ANGELES TIMES, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2011 | 00h00

O novo país será um dos mais pobres do continente. Metade da população depende da distribuição de comida, apenas 15% sabe ler e escrever e o Sudão do Sul nasce com apenas 50 quilômetros de estradas pavimentadas - enquanto o vizinho do norte tem mais de 3.600 quilômetros.

A única coisa que pode tornar o país viável é o petróleo. Caso fique independente, o Sudão do Sul herdará 80% das reservas do país - razão pela qual o presidente do Sudão, Omar al-Bashir, sempre resistiu a dar aval ao referendo. Seu governo tentou adiar a votação e foi acusado de armar milícias aliadas e bombardear regiões fronteiriças. Os confrontos de ontem ocorreram justamente nesta região.

A perda de recursos deve obrigá-lo a negociar a exploração do petróleo, que representará 98% do orçamento do novo país. Como trunfo, o Norte ficará com os oleodutos e com a saída para o mar. Outras pendências que estarão na mesa de negociação é o acesso às águas do Rio Nilo Branco, um dos afluentes do Nilo, a demarcação da fronteira entre os dois países e definições sobre cidadania no Sudão do Sul.

O ressentimento entre os dois lados, porém, tem tudo para dificultar um acordo. O Norte tem 35 milhões de habitantes, quase todos muçulmanos. O Sul, 9 milhões, a maioria cristãos. As diferenças religiosas foram o combustível para a guerra civil, de 1983 a 2005, que matou dois milhões de pessoas e terminou com um acordo entre o governo central e o Exército de Libertação do Sudão, que estabeleceu o referendo em 2011.

Em caso de vitória, os separatistas pretendem se distanciar ao máximo de Bashir, procurado pela Tribunal Penal Internacional para crimes de guerra (mais informações na página 10), e dos problemas do Sudão, entre eles a guerra em Darfur, que já matou mais de 300 mil pessoas.

Em Juba, capital do Sudão do Sul, Peter Bashir Bandi, um rebelde transformado em líder político fala com eloquência sobre a democracia e a luta para criar um país a partir de desertos e selvas, mas raramente se afasta de sua arma.

As animosidades recrudesceram nas últimas semanas e uma nova guerra desestabilizaria ainda mais uma região fértil para o fundamentalismo islâmico. Os EUA estão preocupados com os radicais. Em junho, dois atentados da Al-Qaeda mataram 76 pessoas.

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