Referendo escocês pressiona empresas britânicas

Enquanto os mercados financeiros se preocupam com as incertezas em torno do referendo de independência da Escócia, marcado para o próximo dia 18, algumas empresas britânicas começam a parecer vulneráveis. Executivos dos setores de defesa, serviços financeiros e energia têm expressado receios sobre o futuro formato de suas respectivas indústrias diante do aumento do apoio à separação escocesa.

Estadão Conteúdo

09 de setembro de 2014 | 18h21

Autoridades de defesa britânicas alertaram que a produção de navios de guerra na Escócia pode ser afetada se o país decidir pela independência, pois o Reino Unido compra esses navios principalmente de produtores domésticos. As ações da BAE Systems, maior fabricante de armas britânica, e da Babcock International Group, que tem grandes contratos de assistência para a frota de submarinos nucleares do Reino Unido na base naval de Faslane, na Escócia, caíram quase 1,0% e 3,0%, respectivamente, desde o começo desta semana.

A BAE Systems, que no ano passado decidiu encerrar a construção de navios em Portsmouth, Inglaterra, e consolidar suas atividades em suas instalações escocesas, afirmou que "a continuação da união oferece mais certeza e estabilidade para os negócios". A estabilidade é uma preocupação comum entre várias empresas britânicas com ativos relevantes na Escócia.

Companhias de petróleo e gás temem, por exemplo, que um governo escocês separado seja mais dependente da receita com petróleo para seu orçamento do que o Reino Unido tem sido. Isso poderia levar o novo governo a cobrar mais impostos das petroleiras se a produção continuar caindo e as receitas fiscais diminuírem. A produção no Mar do Norte recuou 8% no ano passado em comparação com 2012 e cerca de 70% em relação ao pico atingido em 1999.

Executivos da BP e da Royal Dutch Shell declararam que preferem que a Escócia permaneça como parte do Reino Unido. O setor também vem reduzindo investimentos por causa das incertezas sobre a independência do país, dos altos custos e das estruturas fiscais complexas. Apenas 12 poços de exploração foram perfurados no primeiro semestre deste ano, abaixo de 27 no mesmo período do ano passado, de acordo com o grupo comercial Oil & Gas UK.

Serviços financeiros - que correspondem a uma parte significativa da economia escocesa - também têm sido prejudicados pelo aumento do apoio à independência. As ações do Lloyds Banking, do Royal Bank of Scotland Group e da seguradora Standard Life caíram mais de 2,0% ontem. O governo britânico ainda possui 80% de participação no RBS e 24,9% no Lloyds, adquirida na sequência da crise global de 2008.

A separação da Escócia alimentaria grandes incertezas para as empresas de serviços financeiros. Questões não resolvidas com relação ao montante da dívida do Reino Unido que uma Escócia independente assumiria e a forma como os mercados de bônus avaliariam essa dívida são importantes para as instituições financeiras. Para os bancos escoceses, as incertezas podem provocar uma onda de saques de depósitos, embora muitos tenham afirmado que até agora não sentiram impactos.

Os ativos dos bancos escoceses são 12 vezes maiores que o Produto Interno Bruto (PIB) da Escócia, de acordo com o Tesouro britânico. O setor financeiro é responsável por 200 mil empregos e contribui com cerca de 7 bilhões de libras para a economia, segundo o grupo comercial Scottish Financial Enterprise.

No entanto, também há aspectos bons para setores dependentes da Escócia. Os produtores de whisky escocês podem se beneficiar de uma libra mais fraca, que reduzirá os custos de exportação - assumindo que a Escócia continue usando a moeda, como defendem os proponentes da independência. As exportações de whisky escocês somam cerca de 4,3 bilhões de libras por ano, de acordo com a Scotch Whisky Association, com aproximadamente 20% indo para os EUA.

Outros setores que também podem ganhar com uma libra enfraquecida são os de tabaco e farmacêutico, de acordo com o Citigroup. Analistas do banco citam a British American Tobacco, a Imperial Tobacco Group, a GlaxoSmithKline e a AstraZeneca entre as prováveis beneficiadas, já que grande parte de suas vendas são feitas no exterior.

Um aumento do controle das fronteiras da Escócia - uma provável consequência seja qual for o resultado do referendo - pode ajudar a indústria de tecnologia do país. John Peebles, executivo-chefe da startup escocesa Administrate, afirma que as mudanças podem dar mais flexibilidade para profissionais altamente qualificados ou estudantes estrangeiros que queiram ficar no país. Fonte: Dow Jones Newswires.

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