Referendo mede apoio de egípcios a golpe contra Morsi

Consulta sobre Constituição indica potencial do general Al-Sisi como candidato em eleição presidencial que deve ocorrer em abril

AP, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2014 | 02h09

CAIRO - Sob um forte esquema de segurança, os egípcios começaram a votar ontem em um referendo nacional de dois dias para decidir se aprovam a nova Constituição do país. A consulta é parte do plano de transição imposto pelos militares após o golpe de Estado que derrubou o presidente Mohamed Morsi, em julho.

Apesar dos mais de 200 mil policiais e militares mobilizados, houve confronto entre militantes da Irmandade Muçulmana, de Morsi, e forças de segurança, deixando pelo menos 11 mortos e 28 feridos. Também foram registradas explosões de pelo menos duas bombas - uma destruiu a fachada de um tribunal - sem deixar feridos.

O objetivo dos novos donos do poder no Egito é enterrar a Constituição com forte conteúdo islâmico aprovada durante o governo da Irmandade, substituindo-a por uma Carta que garante ampla autonomia aos militares e ao Judiciário, além de garantias a minorias. O atual governo interino seria substituído ainda este ano após eleições. A Irmandade, grupo que foi formalmente banido e qualificado como "terrorista" boicota a votação.

Uma das cinco vítimas da violência de ontem é Mahmoud Sayed Gomaa, de 25 anos, morto durante um protesto contra o referendo perto de um centro de votação na região de Bani Suef, ao sul do Cairo. Segundo um porta-voz da Irmandade que pediu anonimato, as vítimas morreram ao serem atingidas por tiros disparados pelas forças de segurança.

O referendo é visto como um voto de confiança sobre o regime instalado após a queda de Morsi. A nova Carta é uma reformulação da Constituição adotada em dezembro de 2012 durante a presidência da Irmandade. Elaborado por um conselho de 50 membros de inclinação predominantemente secular, o documento criminaliza a discriminação, preserva a igualdade de gêneros e assegura uma série de liberdades e direitos.

O presidente egípcio passa a ter um mandato de quatro anos, renovável apenas uma vez. A religião oficial do Estado continua a ser o Islã, mas sem dar à sharia (lei islâmica) peso determinante na vida política.

A votação é também um teste ao cada vez mais popular chefe das Forças Armadas do Egito, general Abdel-Fattah al-Sisi, artífice do golpe contra Morsi e provável candidato na próxima eleição presidencial, que provavelmente ocorra em abril.

Uma votação confortável no "sim" e um comparecimento respeitável à consulta legitimariam a queda da Irmandade. Ao mesmo tempo, enfraqueceriam o argumento dos islamistas de que Morsi continua sendo o presidente.

"Não se trata só de um referendo sobre a Constituição. Esse é um aspecto entre vários outros dessa votação, incluindo Sisi e a luta contra a violência de militantes", disse o analista e colunista Makram Mohammed Ahmed, próximo dos militares. "Não consigo imaginar que uma grande maioria de "sim" trará automaticamente uma nova legitimidade que será reconhecida pelo Ocidente, mas esta é uma boa Constituição e deve ter seu valor reconhecido."

Temendo ataques de militantes, soldados foram posicionados em aeroportos por todo o país para serem transportados prontamente a locais de possíveis atentados. Aviões militares monitoram rotas pouco usadas no deserto para cidades importantes, tática destinada a barrar a infiltração de militantes, segundo as autoridades.

Atiradores de elite também seriam postados perto dos postos de votação. Províncias com grande histórico de violência foram isoladas do restante do país enquanto a polícia e o Exército tentam controlá-las.

A Carta adotada no governo Morsi recebeu cerca de 64% dos votos favoráveis num comparecimento eleitoral em torno de 30% - em parte, em razão do boicote à votação feito pela oposição na época. Esta semana, foi a Irmandade e seus apoiadores que convocaram um boicote. Seu argumento é que o processo todo, a começar pelo golpe, é ilegítimo, e eles estão planejando manifestações em massa durante a votação.

O grupo aprimorou suas táticas de mobilização, tendo recebido mais de 40% dos votos nas eleições parlamentares no fim de 2011 e início de 2012. Mesmo assim, é difícil prever que eficácia terá o boicote, considerando que a maioria dos dirigentes de alto e médio escalão da Irmandade está presa ou fugiu.

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