Egyptian Presidency Media office via AP
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Referendo no Egito dá mais poderes a Sissi

No entanto, 4 milhões de egípcios rejeitaram a mudança constitucional que permitirá ao presidente permanecer no cargo até 2030

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2019 | 05h00

O presidente egípcio, o marechal Abdel Fatah al-Sissi, venceu seu referendo. Ele recebeu uma forte maioria em favor de seu projeto de revisão constitucional. No entanto, o que surpreende os observadores internacionais é que o “não”, isto é, a recusa da reforma desejada por Sissi, reuniu 11,17% dos votos. 

Número ridículo se comparado aos 88,83% dados ao “sim”. Contudo, surpreendentemente, neste grande país liderado pelo marechal Sissi desde 2004, esperava-se que a oposição obtivesse uma votação medíocre, de algumas dezenas de milhares de pessoas. No entanto, foram 4 milhões os egípcios que rejeitaram a proposta de Sissi.

Mustafa Kamil al-Sayyed, que leciona ciência política e milita no Movimento Democrático Civil (MDC), não esconde seu espanto: “Estou impressionado”, disse ele, com a coragem de 4 milhões de egípcios que disseram não. “Isso é um tanto quanto inédito no Egito.”

No entanto, ele questiona por que Sissi precisou submeter seus projetos a referendo? Ele já não tinha quase todos os poderes desde que depôs Mohamed Morsi, em um golpe militar em 2013, que tinha subido ao poder depois da revolta democrática 2012? 

Morsi era membro da Irmandade Muçulmana e seu governo tinha sido tão brutal e caótico que os egípcios haviam recebido favoravelmente o golpe de Estado de Sissi. Desde então, o marechal reina sozinho.

E, mesmo assim, Sissi considera que deve aumentar mais seus poderes. O que incomoda o marechal é que ele corre o risco de ficar sem tempo para realizar os maravilhosos projetos que sonha para seu país. Peguemos a calculadora: Sissi foi eleito em 2014, depois reeleito em 2018. Então, estaria tranquilo até 2022. 

Entretanto, justamente, não está tranquilo. Ele tem medo que lhe falte o tempo necessário. Sissi propôs duas melhorias: primeiro, seu mandato atual será estendido para seis anos. Mas isso não é suficiente. Além do mais, o referendo lhe permitirá buscar um terceiro mandato e, a menos que ocorra algum incidente de percurso, Sissi vai governar o Egito até 2030. Longo período para os vastos projetos que, segundo ele acredita, beneficiarão todo o país. E, em 2030, ele terá apenas 76 anos, na flor da idade.

Isso é para a duração do seu reinado. Mas, além disso, ele fortaleceu os poderes da presidência: o texto aprovado na terça-feira amplia o controle do presidente sobre o Judiciário. Sissi terá poder sobre as nomeações dos chefes de jurisdição. Também escolherá seu vice-presidente e vários senadores. Finalmente, o Exército terá o direito de intervir na vida política. Os militares o serão colocados acima do poder político.

Nós compreendemos por que Sissi estava tão interessado neste referendo. Também entendemos por que, nos dias que antecederam a eleição, o governo usou todos os seus encantos para seduzir os cidadãos: distribuição gratuita de alimentos e transporte gratuito para os que desejassem votar. Diz-se que alguns funcionários do governo foram ameaçados de não receber salário se não votassem.

Quando foi informado sobre os resultados, o presidente Sissi publicou um texto. Agradeceu a seus concidadãos, dizendo que eles haviam “maravilhado o mundo” por meio de sua consciência nacional, frente aos desafios “que o nosso amado Egito enfrenta”. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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