Reforço no Afeganistão deve ter efeitos no Paquistão

Envio de 21 mil soldados dos EUA empurrará rebeldes do Taleban para território paquistanês

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON, O Estadao de S.Paulo

18 de maio de 2009 | 00h00

A partir de julho, 21 mil soldados americanos desembarcarão no Afeganistão, especialmente nas áreas mais problemáticas do país, na fronteira com Paquistão. Há consenso de que, para aplicar a estratégia anti-guerrilha com o novo comandante do Exército americano em Cabul, general Stanley McChrystal, é necessário reforçar o contingente militar no país. Mas a grande interrogação é o efeito dessa "escalada de tropas" no vizinho Paquistão. A fronteira entre os dois países é terra de ninguém e, com a ofensiva americana, milhares de rebeldes Taleban devem se refugiar no Paquistão - onde o acesso de militares americanos é restrito a atividades para o treinamento das forças paquistanesas.Esse fluxo de guerrilheiros tem o potencial de levar o caos a um país já muito instável. "Com seu arsenal nuclear, santuários de terroristas e aumento no número de insurgentes, o Paquistão tornou-se um dos maiores desafios de política externa que enfrentamos", disse o senador democrata John Kerry em audiência no Congresso, na semana passada. A Casa Branca sabe que boa parte do conflito do Afeganistão será decidida mesmo é no Paquistão. E admite que o aumento do número de tropas pode gerar efeitos colaterais no Paquistão. "Sei que essa escalada de tropas no Afeganistão pode ser contraproducente no Paquistão", afirmou na semana passada o enviado da Casa Branca para Afeganistão e Paquistão, Richard Holbrooke. "Mas nós precisamos de mais soldados simplesmente porque não temos tropas suficientes para cumprir nossa missão." Como os EUA não podem enviar soldados para o Paquistão, o jeito é reforçar o Afeganistão. E, além disso, estimular o desenvolvimento paquistanês como forma de combater o Taleban. No início do mês, Kerry e o senador republicano Richard Lugar apresentaram uma proposta de legislação para triplicar o nível de ajuda econômica dos EUA para o Paquistão, para US$ 7,5 bilhões, ou US$ 1,5 bilhão por ano."Ajudar no desenvolvimento do Paquistão e desinflar as tensões com a Índia pode levar a uma redução do extremismo religioso", diz Saeed Shafqat, professor da Universidade Columbia em Nova York.Mas o Congresso está dificultando a liberação dos recursos e propõe o estabelecimento de exigências e metas a serem cumpridas. Isso porque, durante o governo de George W. Bush, os EUA despejaram bilhões nas mãos do então presidente Pervez Musharraf, com pouquíssimos resultados. Mas brecar os recursos não vai ajudar muito. "Atrasar a liberação dos recursos pode desestabilizar o governo civil do Paquistão e aumentar a confiança do Taleban", diz Shafqat.Há uma profunda desconfiança entre EUA e Paquistão. Para a Casa Branca, o grande problema é que os paquistaneses estão dando ênfase à luta contra a Índia, mas resistem em enfrentar os rebeldes taleban - considerados pelo governo do país como "um dos nossos". Eles usam os recursos americanos para investir em equipamentos apropriados para um conflito com a Índia, e não contra o Taleban, além de limitar a operação de tropas americanas no Paquistão. Por isso, o Pentágono vem operando aviões não tripulados no Paquistão - foram mais de 30 ataques em solo paquistanês, que mataram cerca de 20 líderes da Al-Qaeda e do Taleban.VALE DO SWATA Casa Branca ficou muito irritada com os acordos que Zardari fechou com o Taleban no Vale do Swat - que permitiram aos insurgentes ocupar o vale e ampliar sua presença no país, chegando até a 100 quilômetros da capital, Islamabad. Diante de críticas dos EUA, o Exército paquistanês montou uma ofensiva contra o Taleban nos últimos dias, que deixou 800 guerrilheiros mortos. Mas o acirramento do conflito produziu um problema de refugiados sem precedentes - cerca de 1 milhão de paquistaneses fugiram de suas casas, números que só se comparam à grande diáspora de 1947, quando a Índia foi dividida e parte de seu território deu origem ao Paquistão. "A crise de refugiados pode causar instabilidade", diz Andrew Exum, especialista do Center for a New American Security. Do lado dos paquistaneses, a desconfiança em relação aos americanos também é grande. Depois de patrocinar os mujahedin no Afeganistão, no conflito contra a então União Soviética no fim dos anos 70, os EUA deixaram o Paquistão com o problema de grupos insurgentes que acabaria originando o Taleban."Os paquistaneses continuam céticos em relação aos EUA, mas há esperanças de uma mudança com Obama. Acho que o desenvolvimento do país é a grande oportunidade de saída para esses problemas", diz Shafqat. DESAFIOSJohn Kerry Senador Democrata "Com seu arsenal nuclear e santuários de terroristas, o Paquistão tornou-se hoje um dos maiores desafios de nossa política externa"Richard HolbrookEnviado especial dos EUA "Sei que essa escalada de tropas no Afeganistão pode ser contraproducente no Paquistão"

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