'Reforma da ONU voltou à agenda e isso é altamente positivo para o Brasil'

ENTREVISTA

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2010 | 00h00

Matias Spektor, COORDENADOR DO CENTRO DE ESTUDOS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA FGV DO RIO

A decisão americana de apoiar a candidatura da Índia a um assento permanente no Conselho de Segurança é um balde de água fria ou uma grande oportunidade para o Brasil?

Certamente não é um balde de água fria. Obama aproveitou sua viagem à Índia para oferecer a Nova Délhi algo que ela demanda há anos. Mas essa decisão também indica uma reorientação aos EUA, que passam a reconhecer pretensões de emergentes em relação ao Conselho de Segurança. Ao dar força à aspiração indiana - mesmo sem falar em "quando" ou "como" -, o presidente Barack Obama coloca a reforma da ONU de volta na agenda. Trata-se de uma abertura e, portanto, é altamente positivo para o Brasil.

Obama disse ontem que a Índia "não é um país emergente, mas um país que já emergiu". Em qual dessas duas categorias os EUA enquadram o Brasil? Temos o status dos indianos?

A viagem de Obama indica o grande interesse americano em fortalecer a Índia. Isso vem do presidente George W. Bush, que assinou com Nova Délhi - que não é signatária do Tratado de Não Proliferação Nuclear - um ambicioso acordo atômico. A preocupação é criar um equilíbrio de poder na região diante da China. Ou seja, a Índia tem uma grande importância geopolítica para os EUA - o que não é bem o caso do Brasil.

Há centenas de milhares de eleitores americanos de origem indiana e isso cria uma interdependência social entre EUA e Índia que o Brasil tampouco tem. Além disso, a Índia é uma potência nuclear. Evito dizer que a Índia está em outra liga do que o Brasil. Mas, da perspectiva dos EUA, o paralelo com o Brasil é a Turquia.

Relatórios de inteligência dos EUA costumam colocar o Brasil não ao lado de Índia e Rússia, mas de países como Indonésia e África do Sul. Qual é a percepção de Obama em relação ao Brasil?

Com Obama, a relação EUA-Brasil atravessou turbulências: Honduras, Irã, Rodada Doha, negociação do clima em Copenhague, bases na Colômbia. Esses exemplos mostram que uma parceria não é natural, ela deve ser construída.

Agora, com a eleição no Brasil, há uma oportunidade de diálogo com os EUA, justamente sobre temas como reforma da ONU. O Brasil é visto como um grande parceiro potencial tanto em temas globais, como meio ambiente e comércio, quanto em temas regionais, como democracia e combate à pobreza.

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